quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Exibição de levianismo

     A mediocridade política brasileira nos castiga, quase diariamente, há muitos anos, com cenas quase escatológicas. Personagens limitados, demagogos, mentirosos, manipuladores mancham o Poder, invariavelmente.
     Nos últimos meses, a sequência de de denúncias de crimes e criminosos chegou a um nível inimaginável, até mesmo para o Brasil, país que não é lá um dos bons exemplos mundiais de decência no trato com a coisa pública.
     Vimos de tudo um pouco. De ladrões de casaca a batedores de carteira. Faltava, no entanto, a exibição mais barata de levianismo, de falta de apego à dignidade pessoal. E ela, finalmente, chegou, através do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, desse lamentável PDT, partido que faria seus fundadores - se mortos já não estivessem - morrer de vergonha.
     Carlos Lupi, depois da exibição de arrogância, ao desafiar a presidente Dilma Roussef a demiti-lo, mergulhou no extremo oposto, dobrando a espinha até encostar a testa no chão. Sua declaração de amor à presidente soou como uma das atuações mais vergonhosas dessa nova república inaugurada na Era Lula.
     O tom cândido de suas explicações - garantiu que não estava se referindo à presidente quando disse que só saía do Ministério à bala - beirou o lastimável. 'Costeou o alambandro da pusilamidade', para usar uma expressão bem a gosto do gaúcho Leonel Brizola, ex-mentor de toda esse pessoal que gravita em torno de uma legenda que perdeu o significado há muito tempo.
     Se não foi demitido, ainda, pelos 'malfeitos' na sua pasta, deveria afastado em prol da dignidade do cargo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Histórias de Júlia e Pedro (25)

     Longe da mãe, pela primeira vez

     Júlia é uma criança muito especial, não canso de dizer. É alegre, esperta, tem um ótimo raciocínio, é extremamente irônica (com graça) e muito, muito doce. Sua legião de amigas e amigos cresce a cada ano. Manteve as amizades do maternal e pré-escola e acrescentou um grupo enorme do Pedro II, onde cursa a segunda série do fundamental (o antigo primário).    
     Nos seus oito anos de vida, jamais ficou longe dos pais, exceto por algumas noites eventuais nas casas dos avós e de uma ou duas amiguinhas ainda mais chegadas. Não mais do que meia dúzia de vezes, bem espaçadas, e só de uns dois anos para cá. Até agora.
     Flávia, a mãe, relutou muito, mas acabou cedendo e viajou para Guadalajara, no México, para trabalhar no Para-Pan (ela é jornalista, como eu). Uma viagem de 15 dias. Com seu jeito 'maduro', Júlia fez uma avaliação dos benefícios da viagem. E concluiu que há quatro boas razões para a mãe ter viajado, e três ruins.
     As boas:
     1 - "Acho que minha mãe vai ganhar bem";
     2 - "Com o dinheiro que ela vai ganhar, acho que ela vai trocar os móveis do meu quarto";
     3 - "Ela vai trazer presentes para mim e para o Pedro"; e
     4 - "Eu vou ficar com o computador só para mim todos esses dias".
     As ruins:
     1 - "Eu vou ficar com muita saudade";
     2 - "Ela vai trabalhar e não vai poder passear"; e
     3 - "Eu não fui com ela".
     Júlia é assim.

Na fila da demissão

     O ainda ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), pisou no freio, depois da derrapada de ontem à noite, quando desafiou, sim, a presidente Dilma Roussef a demiti-lo. Hoje - aproveitando a participação em um desses programas pirotécnicos lançados pelo Governo para conquistar espaço no noticiário - disse que não disse o que todos nós vimos e ouvimos nos noticiários das tevês, ontem à noite.
     Encostado no meio-fio, temendo ser atropelado por uma carreta desembestada, garantiu que estava se referindo a uma tal "onda de denuncismo" que, segundo ele, está maculando a honra de pessoas de bem sem dar a elas o direito de defesa.
     Esse é o retrato pronto e acabado do sujeito que tenta sair das cordas apelando para o diversionismo. Não existe - e ele sabe muito bem disso - onda de denuncismo. Há, sim, pessoas do governo (ou ligadas de alguma forma ao governo) que, por sentirem-se afetadas, estão revelando a podridão dos corredores ministeriais, em especial.
     Não houve uma denúncia sequer - e eu desafio alguém a apresentar um exemplo - que não tenha surgido de dentro do próprio esquema, nascido nos intestinos do Poder. Todos os ministros que submergiram nesses dez meses do Governo Dilma foram atingidos por uma 'onda amiga'.
     A Oposição - se é que ela existe - limita-se a repercutir as manchetes de jornais e revistas, apontando para o lado que as notícias indicam. E, como é minguada, medíocre e desfibrada, depende exclusivamente do poder de fogo dos veículos de comunicação para conquistar algum espaço.
     Lupi sabe disso tudo. Sabe que entrou na lista dos candidatos à demissão 'voluntária'. Talvez esteja lutando, apenas, para receber uma boa indenização pelos anos de fidelidade.

O calcanhar sujo da USP

     Não satisfeitos em invadir e depredar os prédios onde estudam e a Reitoria da Universidade de São Paulo (já nem falo nas tijoladas em jornalistas e nos policiais militares que atuam no campus, a pedido do Conselho Diretor), os alunos do curso de Letras da faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas decidiram continuar em greve. Continuar, sim, pois eles já não assistem às aulas há muito tempo.
     A maioria sabe que as aulas não fazem a menor diferença para 'estudantes' que chegam à universidade e escrevem 'trabaliadores' - com i, n lugar de h - e não acertam uma simples concordância. Sem querer ser preconceituoso - e já sabendo que serei -, basta olhar as fotos dos invasores de reitorias (sem os capuzes e máscaras, é claro) para ter uma ideia do tipo de estudante sobre o qual estamos falando.
     Nélson Rodrigues, autor de algumas imagens definitivas e geniais ('padre de passeata', 'sobrenatural de Almeida' etc), cunhou, há muitos anos, uma descrição sensacional, que poderia ser aplicada hoje, com absoluta propriedade, aos 'meninos' e 'meninas' da USP: as estudantes de comunicação (ou algo semelhante) da PUC que tinham o 'calcanhar sujo'.
     Na época de Nélson, pelo menos, os jovens marchavam e sujavam os calcanhares por um objetivo claro: pedir liberdade. Os da FFLCH da USP fazem baderna para conquistar o direito de fumar maconha impunemente no campus.

Cerco ao Irã

     O mundo - excetuando China e Rússia (*), que fazem parte de outra galáxia, governados que são por ditaduras disfarçada, uma, e declarada, outra - começa a levar a sério a enorme ameaça à paz representada pelo Irã, uma nação terrorista comandada por fanáticos religiosos que interpretam o islamismo à sua vontade.
     O relatório da Agência Internacional de Energia Atômica, revelando as iniciativas iranianas na busca pelo controle da energia nuclear para fins militares, não deixa outra alternativa aos países que têm responsabilidade em relação ao nosso planeta. Será necessário, sim, intervir, de uma maneira ou outra.
     Não se pode, sequer, imaginar o Irã atual armado com artefatos nucleares. A segurança, de Israel, em especial, estaria ameaçada diretamente. Um ataque iraniano certamente desencadearia uma resposta sem precedentes, levando o mundo ao risco de colapso.
     Uma ocupação, como a realizada no Iraque, por exemplo, talvez não seja a mais indicada, pelas consequências, desgaste e perda de vidas. Num primeiro momento, uma forte pressão econômica e uma definição bem clara das etapas seguintes. O Irã precisa saber que não pode descumprir normas internacionais. Que não vive num mundo isolado, onde não tem que prestar contas aos demais.
     Estados Unidos e Inglaterra já haviam antecipado suas preocupações. Agora foi a França, que já defende abertamente uma intervenção. Contra a retórica do ditadorzinho Mahmoud Ahmadinejad, bastam sanções leves. Contra as ações criminosas desse representante da ignorância e do obscurantismo, talvez seja necessário usar a força, em uma segunda etapa, que não está tão longe assim.

(*) Cuba e Venezuela não entram nessa minha visão de mundo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Só com bala de prata

     As declarações do ainda ministro do Trabalho, Carlos Lupi, ao vivo e a cores, no Jornal Nacional, possibilitam diversas interpretações. Abstraindo o fato de serem uma bazófia, bem no estilo pedetista, soaram como um desafio - talvez pelo tom empregado - à presidente Dilma Roussef, que pouco antes ocupara uma rede nacional para anunciar que todos os brasileiros vão ser atendidos em casa, por médicos e enfermeiras. Mas isso é outro assunto (*), que também merece ser criticado. Voltemos ao ministro.
     Cercado por correligionários, Lupi disse, com todas as letras, duvidar que a presidente o demita, porque ele a conhece bem, e ela a ele. E foi além: afirmou que seria preciso usar uma bala bem forte para derrubá-lo. Quem seria, então, o possível atirador?
     São atitudes - temos que admitir - de alguém que está seguro da própria força, de quem tem 'bala na agulha', para ficarmos na imagem bélica criada pelo ministro. Não há meio termo. Ou ele é totalmente inocente no caso da roubalheira no seu ministério (algo difícil de acreditar, em função da proximidade dos acusados), ou conhece muitos segredos das entranhas do Poder, e deixou bem claro que poderá usá-los.
     Os ex-ministros que o antecederam nos escândalos também reagiram, custaram a aceitar a demissão. Houve, até, quem ameaçasse sair do Governo. Mas ficou tudo ajeitado, ninguém foi preso ou obrigado a devolver a dinheirama desviada. Dos males, sempre o menor, para a turma companheira.
     As próximas manchetes de jornais ou capas de revistas vão colocar em prova essa força toda. Bala mata até lobisomem. E não precisa ser de ouro. Basta ser de prata.

(*) Não satisfeita com as bobagens ditas pelo seu antecessor no cargo, sobre a saúde brasileira, a presidente Dilma Roussef extrapolou. Ao anunciar atendimento em casa para pacientes do sistema público de saúde e médicos à vontade nos hospitais, apostou na infantilização do público. Jogou no ar um pacote de ideias salvadoras, sem data para começar, prazos e quetais. Fogos de artifício que desmerecem a função que ela exerce.

PM e jornalistas no mesmo 'saco'

     Os 'meninos' que apoiam os encapuzados expulsos da Reitoria da USP pela Polícia Milita - que atendeu a uma determinação judicial - elegeram novos inimigos: os jornais e televisões, que eles chamam de 'mídia'. Agora, além da saída da PM, que está no campus justamente para defender a integridade dos estudantes sérios, eles querem dar um pontapé nos repórteres, irritados, certamente, com a cobertura dada ao vandalismo travestido de movimento estudantil.
     Inconformado com o fato de os invasores e destruidores do patrimônio público estarem no lugar adequado - na cadeia -, um grupo da mesma área passou o dia xingando policiais e jornalistas, colocados - que ironia! - no mesmo saco e na mesma faixa de protesto.
     Enquanto isso, advogados dos estudantes passaram o dia tentando um habeas corpus coletivo, para tirá-los da prisão. Os 'jovens manifestantes' alegam que sofreram violência policial - coitados! Em nota oficial, dizem que "levaram (os PMs) todas as mulheres para uma sala fechada e as obrigaram a sentar no chão e ficar rodeadas por policiais homens, com cassetetes nas mãos".
   
    Fiquei 'chocado' com essa atitude policial. Os encapuzados que quebraram portas, destruíram computadores, sujaram paredes e estocaram bombas caseiras foram obrigados a 'sentar no chão'. A OAB e as ONGs companheiras devem se manifestar contra essa atitude. Em contrapartida, fico aguardando notas oficiais dos sindicatos dos jornalistas, em defesa dos seus representados, vítimas da intolerância estudantil.