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terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 36 (final)

Dividindo o rio com uma gaiola
    
O fim de um desafio

     Rio Pará, nas proximidades de Belém, sábado, 15/08/1999 - O comandante Chicão garante que o movimento nessas águas, atualmente, é muito pequeno. "As estradas esvaziaram os rios", diz, saudoso. Não é o que parece para nós, navegantes recentes. Comparados ao Rio Madeira, o Amazonas e o Pará (na verdade, o Rio Pará pode ser considerado um braço do Amazonas) parecem estradas de cidade grande.
     Durante todo o dia cruzamos com dezenas de pequenos barcos de passageiros, uma boa centena de canoas, alguns navios e lanchas modernas. À noite, as luzes de outras embarcações pontuam o horizonte. Agora mesmo, viajamos ao lado de outra balsa e de um pequeno navio, todos na mesma tocada de segurança (17 km/h).



     Nessa época do ano, segundo a tripulação, não há muitos riscos na navegação, apenas um ventinho mais forte. Os problemas aparecem na época dos temporais, no final do ano.
     Uma tempestade na entrada da Baía de Marajó, por exemplo, pode ser muito perigosa. "Às vezes, é melhor parar e esperar acabar o temporal. As ondas e o vento viram um barco com facilidade", lembra um tripulante.
     Vento, aliás, foi o que não faltou nessa viagem. Suportável, mas suficientemente forte para atrasar nossa chegada em duas horas, de acordo com os cálculos do comandante Chicão.
     Já houve a festa de aniversario de Alexandre, orquestrada por João Marcos. Além de bolo, Meire, a cozinheira, preparou pudim de leite. Tudo regado a refrigerante, pois a tripulação não bebe em serviço.
     O vinho? Bem, bebemos depois, na proa da balsa. Comemorando, também, o sucesso da nossa "aventura caribenha" e o começo da próxima.

domingo, 12 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 35

O encontro, marcado por mensagens e apitaço


Reencontro e festa

     Estreito de Breves, Pará , sexta-feira, 13/08/1999 - Ainda no Estreito de Breves, um feliz reencontro. Nossa balsa cruzou com o NM XXVI, a mesma embarcação que nos levou de Porto Velho a Manaus, pelo Rio Madeira. Foi um momento marcante, pela reação da "nossa" antiga tripulação, que nos saudou efusivamente. Houve até uma troca de mensagens entre os comandantes Moisés e Chicão. Valeu, realmente.
     Devemos chegar em Belém às cinco horas da manhã. Desembarcamos duas horas depois e seguimos no rumo de Brasília, ponto final do Projeto Integração.
     Antes, no entanto, vamos comemorar o aniversário de Alexandre Viana - organizador dessa expedição ao Caribe - cruzando o Rio Pará. Como no aniversário de João Carlos Nogueira (no Rio Madeira), teremos vinho e a participação da tripulação, que, dessa vez, ofereceu o bolo, preparado a bordo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 34

Os ribeirinhos enfrentam as águas em canoas frágeis

Os meninos do rio

     Estreito de Breves, Pará , sexta-feira, 13/08/1999 - Deixamos o Rio Amazonas de madrugada e entramos no Estreito de Breves, um canal que contorna a Ilha do Marajó e desemboca no Rio Pará, que, por sua vez, se encontra com o Tocantins para, juntos, desaguarem na Baía de Marajó.
     Chegamos ao Estreito de Breves (cerca de 200 metros de largura) preocupados. Os tripulantes da balsa que nos leva para Belém insistiram muito para que não deixássemos nada fora das picapes. Segundo eles, em virtude da proximidade das margens, havia o risco de roubo.
     A realidade, no entanto, pelo menos hoje, foi diferente. Fomos atacados, sim, mas por grupos de crianças que pediam tudo. Pão, dinheiro, balas, o que vissem. A semelhança com os meninos de rua das grandes cidades é impressionante. O Estreito de Breves, aliás, lembra muito uma grande avenida. É extremamente habitado (para os padrões amazônicos) e repleto de vendedores que oferecem de tudo um pouco. Uma espécie de camelôs fluviais.
     Suas canoas ficam postadas estrategicamente no rio, à espera da passagem das embarcações. Com uma rapidez incrível, se aproximam dos barcos maiores, como nosso comboio (balsa e empurrador), que navegava a quase 20 km/h.
     No meio dos vendedores, muitas crianças. Crianças, mesmo. Meninos e meninas de sete ou oito anos encarapitados em canoas absolutamente frágeis impulsionadas, apenas, pela força dos remos. Como conseguem, não sei. Só pode ser porque nessa região todos nascem praticamente na água.
     As crianças não ganham velocípedes ou bicicletas. Suas casas estão debruçadas sobre o rio, montadas em estacas que nem sempre as protegem das enchentes.
     O quintal de casa é o rio, onde passam a maior parte de suas vidas. Hoje, pela primeira vez, vimos dois meninos jogando bola. Não uma pelada, como a que estamos acostumados a observar nas ruas ou praias. Mas um misto de futebol e water-polo. A cara da Amazônia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 33

No caminho, a indicação: o Basil ficava à esquerda

Quarta-feira, 11/08/1999 - Enganos, omissões e coisas afins
     Rio Amazonas - O tempo livre a caminho de Belém serviu, entre outras coisas, para uma olhada crítica em textos passados. Não me refiro a acentos (crases, em especial) ou letras maiúsculas, que andam faltando ou sobrando nas matérias que retratam nosso dia-a-dia. Já explicamos, logo no inicio desses registros, que nosso teclado não dispõe de certos recursos, justamente por não ter sido projetado para a elaboração de textos (destina-se à comunicação entre veículos de transporte e a sede da empresa). Não poderia, jamais, me queixar. O sistema vem atendendo muito bem aos nossos objetivos, graças à sua velocidade e abrangência.
     Eu estou me referindo, por exemplo, aos "exatos 11.575 quilômetros percorridos até Manaus", citados em um dos textos de ontem. Na verdade, foram exatos 11.757 quilômetros.
     Senti falta, também, de ter feito uma referência mais forte ao passado político do atual presidente venezuelano, Hugo Chavez, notório, nos seus tempos de caserna, por ter tentado, sem sucesso, tomar o poder pela força. Talvez tenha me deixado levar pelo vigor político demonstrado por ele, eleito democraticamente e que vem provando ter uma impressionante capacidade de mobilização popular.
     Também não dimensionei muito bem a área dos estados do Amazonas e Roraima destinada à reserva indígena Waimiri Atroari. São 116 quilômetros de estrada, praticamente em linha reta, a maior parte (72 quilômetros) em Roraima. Já ia esquecendo, outra vez: oficialmente, é proibido atravessar essa região entre seis da tarde e seis da manhã.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 32

As barracas, montadas nas caçambas, resistiram ao temporal, depois de um dia de céu azul

Quarta-feira, 11/08/1999 - Madrugada de emoções
     Rio Amazonas - Nossa primeira madrugada no Rio Amazonas, na rota de Belém, a bordo de uma das balsas da empresa Equatorial, foi, no mínimo, emocionante. Depois de um início de noite tranquilo, com um céu espetacular, fomos acordados (estamos dormindo nas barracas montadas nas caçambas das picapes) por um temporal para ninguém botar defeito, com ventos fortíssimos, pingos grossos e as águas do Amazonas bem agitadas.
     A balsa, que tinha até então um comportamento suave, começou a bater forte de encontro as ondas que se formaram de repente. Bater, mesmo. A ponto de acionar os amortecedores dos nossos veículos, que pareciam estar trafegando em uma estrada esburacada.
     Essa situação não muito confortável durou mais de uma hora, com um agravante: a nosso pedido, as picapes estão colocadas justamente na proa da balsa, a pouco mais de um metro do rio (é o melhor lugar para receber os sinais dos satélites usados pelo sistema Autotrac). De dentro da barraca, sentíamos a água do Amazonas bater na proa e 'lavar' o convés.
     O mais "interessante" (digamos assim), é que tudo isso pode ter sido apenas um aperitivo. Segundo marinheiros de outras viagens, o trecho mais batido fica nas proximidades da Ilha de Marajó.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 31

Seu Chicão preferiu ser fotografado de longe, na ponte de comando


Quarta-feira, 11/08/1999 - A velha guarda dos rios
 
      Rio Amazonas, nas proximidades da divisa do Amazonas com o Pará - Se tivesse nascido no Rio de Janeiro, teria muita chance de ser da velha guarda de uma escola de samba. Como nasceu no interior do Pará e acabou de se criar na beira do cais de Belém, "seu" Chicão faz parte do que ele mesmo chama de "velha guarda dos rios".
     Seu Chicão (58 anos) é o comandante do NE XXII, o empurrador que nos transporta e a uma balsa carregada de caminhões para Belém. Um comandante cheio de histórias e lembranças. Para começar, seu nome não é Francisco, como sugere o apelido, e sim João Magno de Lima. "Eu herdei o apelido do meu pai, um mulato muito grande e forte. Sou Chicão desde cedo, por causa dele", conta.
     Nasceu em Iripuia, décimo-terceiro filho (caçula) de uma família muito pobre. Viveu nu até os doze anos. "Nu mesmo. Só botei roupa quando os pelos começaram a aparecer". Viu os doze irmãos e a mãe morrerem e um dia, aos 16 anos, tomou o rumo de Belém, com a única roupa que dispunha, uma jardineira. "Usava o dia inteiro e lavava a noite. Dormia nu, numa proa de barco, no porto."
     Um dia, em Belém, conheceu o pai. "Ele estava falido e bebia muito. Mas mesmo assim fiquei com ele". E aí sua vida começou a mudar. Um amigo do seu pai o chamou para trabalhar embarcado. Aceitou na hora. Ganhou roupas novas e um novo caminho. "Fui trabalhar, depois, num barco a vapor que fazia a rota para Xapuri, no Acre. Levava 35 dias. A gente navegava pelos rios Amazonas, Purus e Acre. Era uma vida dura."
     Numa dessas longas viagens, o barco de seu Chicão ficou dez meses encalhado, no Acre. Foi então que conheceu a mulher, filha de um seringueiro. Casou em Belém, com festança a bordo de um vapor. Tem seis filhos, três homens e três mulheres, uma delas engenheira civil. "Ela não gosta muito que eu conte essas histórias", revela.
     Seu Chicão conhece o Rio Amazonas como ninguém. Sabe de cor os nomes de cada recanto, a profundidade, atalhos e perigos. Já vai longe o tempo em que precisava cortar capim para os bois que eram usados para alimentar a tripulação durante a viagem. "Os bois eram sacrificados ali mesmo, a bordo".
     Ele é piloto, com carteirinha, há cinco anos. No total, são quase quarenta anos passados a bordo das mais variadas embarcações. Experiência de sobra. Agora mesmo, no meio de uma longa conversa no convés do empurrador, apontou para o horizonte e alertou para a chuvarada que estava se aproximando. Mal deu tempo de recolhermos as tralhas e entrarmos nas barracas montadas nas caçambas das nossas picapes.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 30

Pôr-do-sol no Rio Amazonas, a caminho de Belém


Quinta-feira, 12/08/1999 - Uma agradável rotina

     Rio Amazonas - Mudou o rio, mudou o empurrador, mudou a tripulação. Mas a rotina é a mesma. Até mesmo o modo pitoresco de a cozinheira convocar para as refeições: três apitos estridentes, como no fim de uma partida de futebol.
     O dia na nossa balsa também começa e acaba cedo. O café da manhã, na verdade uma pequena refeição, sai antes das sete horas. Às dez e meia, lá vem o apitaço do almoço. Às cinco da tarde, jantar. O cardápio, aqui no Rio Amazonas, a bordo do empurrador NE XXII, é praticamente o mesmo do servido no Rio Madeira por 'dona' Creusa, cozinheira do NM XXVI. Só mudou um pouco o tempero, orgulho de Meire, uma amazonense de apenas 23 anos e uma longa história de dor, semelhante à de milhares de jovens desse país, especialmente nesse canto do Brasil.
     Há, sempre, feijão, arroz, macarrão e farinha grossa. O acompanhamento varia entre peixe da região, galinha e carne (hoje, por exemplo, almoçamos bife com batatas fritas).
     A grande, enorme, diferença está na paisagem. O horizonte do Rio Amazonas é, de fato, avassalador. Desde que passamos por Santarém, a sensação de força que vem das águas barrentas é muito marcante.
     As margens ficaram cada vez mais distantes. Há trechos em que é difícil definir a paisagem. Mesmo com nossa balsa navegando quase sempre pelo canal central. De vez em quando uma surpresa, como agora mesmo. Uma centena de pássaros voando em varias linhas, a não mais do que um metro acima da superfície do rio, a uma velocidade superior aos exatos 23 km/h da nossa balsa (marca conferida no GPS).

terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 29

Terça-feira, 10/08/1999 - O libertador da América
     Manaus – Atravessar a Venezuela e não falar da fortíssima presença de Simon Bolívar seria uma grave falha histórica. Bolivar é, sem a menor sombra de dúvida, a grande figura desse país, seu indiscutível inspirador.
    Não há cidade sem uma estátua do homem que é considerado o libertador da América. O culto à sua imagem é cada vez mais acentuado. E isso ficou ainda mais claro a partir da ascensão ao poder do presidente Hugo Chávez, um indiscutível bolivarista (*).
    Simon Bolivar liderou, na primeira metade do século passado (ao lado de José de San Martin e José Sucre) as guerras de independência da América Espanhola. Sua participação foi decisiva na independência da Venezuela, Bolívia, Colômbia, Peru e Bolívia.
     Bolivar tinha dois sonhos: libertar a América do domínio espanhol e, paralelamente, torna-la uma só nação. Não conseguiu a segunda parte. A unidade hispano-americana não foi para a frente e a Gran-Colombia, que havia criado, dividiu-se em diversos países (Bolivar foi presidente da Venezuela de 1821 a 1828). Assim como o vice-reino do Prata, instituído por San Martin, acabou transformado na Argentina, Paraguai e Uruguai.
     Cansado, doente e, o que é pior, repudiado pelo povo que ajudou a libertar, Bolivar morreu em 1839, aos 56 anos.

(*) O texto toma como referência o momento vivido em 1999.

domingo, 29 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 28


O marco da fronteira com a Venezuela

Terça-feira, 10/08/1999 - Viagem para carro grande
     Manaus - Vou aproveitar o tempo livre aqui em Manaus (a balsa que nos levará a Belém, nossa próxima escala, por esse fantástico Rio Amazonas, só deve sair hoje à noite) para responder, de uma só vez, a um enorme número de pessoas que nos enviaram mensagens com uma questão básica: se é possível fazer essa viagem com um carro comum, de passeio.
     Domingo, percorrendo os caminhos alternativos da Grande Savana, tivemos (eu, Alexandre Viana e João Marcos Venturini) a certeza de que a resposta é não.
     Um carro comum teria enormes dificuldades (acreditamos que não conseguiria) em superar os quilômetros de buracos, pedras, lama e areia que separam a estrada principal dos pontos turísticos mais interessantes da região.
     O sofrimento começaria já nas estradas brasileiras atravessadas por nós desde a saída do Rio. Há muitos buracos espalhados pelo caminho. Uma ameaça constante à integridade de um veículo menos resistente. Mas, com muita calma, seria possível. Atravessar a BR-319, que liga (?) Porto Velho a Manaus, nem pensar. Enfrentar a grande savana, de maneira alguma.
     Nossa, picape (Dakota), embora não tenha sido projetada para desafios off-road (não é um veiculo 4x4), mostrou que tem a seu favor alguns atributos invejáveis, como um motor valente (turbo-diesel de 4 cilindros e 2,5 litros) e boa distância livre do solo (fundamental para escapar de pedregulhos).
     Em alguns momentos, graças, em especial, à habilidade de Alexandre Viana e João Marcos, as Dakotas chegaram a se superar, vencendo aclives muito acentuados e escorregadios.

sábado, 28 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 27

Entre João Marcos e João Carlos, tendo o mar do Caribe ao fundo


Domingo, 8/08/1999 - Para não dizer que não falei do Caribe

     Boa Vista - Assim, de repente, nos demos conta, já aqui em Boa Vista, depois de uma longa jornada de quase oito horas seguidas, que mal falamos do Caribe. Na verdade, para nós, o mar do Caribe sempre foi um emblema, não o objetivo. A proposta do Projeto Integração era mostrar que é possível sair das margens da Baía de Guanabara, de carro, e desembocar no Caribe.
     Não nas já famosas ilhas paradisíacas (Margaritas, San Martin... ), mas simplesmente no Caribe. E nós chegamos lá, como mostra a foto de Alexandre Viana. Reservamos, até, uma tarde para passar na orla marítima de Puerto la Cruz, uma cidade eminentemente turística, de onde partem os ferry boats.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 26

Estradas de terra cortam a região, levando aos pontos turísticos


Domingo, 8/08/1999 - Os caminhos para os tepuys
     Gran sabana, Venezuela - A Grande Savana, esse imenso parque natural, fica no centro da região denominada Guayana (sul da Venezuela, norte do Brasil e sul da Guiana e Suriname). Na verdade, é uma grande planície de 900 a 1.400 metros de altura, com mais ou menos 15 mil quilômetros quadrados de extensão.
     Sobre ela, reinam os 'tepuys', enormes montanhas de até 2.800 metros. São eles que dominam a paisagem e a imaginação dos indígenas. É nos tepuys (o principal deles é o Roraima, exatamente na fronteira de Venezuela, Brasil e Guiana, zona em litígio), também, que nascem os rios que cortam toda essa belíssima região, acessível aos brasileiros pela chamada 'rota da integração', que parte de Manaus e chega a Caracas ao longo de 2.500 quilômetros de estradas.
     A porta de entrada da grande savana, para os brasileiros, é a cidade de Santa Elena de Uairén, a apenas 17 quilômetros da fronteira. Mas há que tomar algumas precauções.
     A primeira delas, óbvia, é estar com o passaporte em dia. A situação dos carros também deve ser regularizada, o que pode ser feito no Departamento de Trânsito de Boa Vista. Além disso, o Brasil exige vacina contra febre amarela.
     No lado venezuelano, os brasileiros contam com a assistência do consulado brasileiro (Calle Antônio José de Sucre, 24, Santa Elena de Uairén, telefone 088.951256).
     Em Santa Elena há várias agencias de turismo autorizadas a funcionar, como a Anaconda, Adventure, Afonso e Happy. Mais detalhes com o escritório de turismo do estado Bolivar.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 25

Ao fundo, um tepuy, marca registrada da Grande Savana


Sábado, 7/08/1999 - Na vizinhança do paraíso
     Gran Sabana, Parque Nacional Canaima, Venezuela - Um dia e uma noite passados na Grande Savana, ao sul da Venezuela, convenceram a todos nós que a região merece pelo menos uma semana de dedicação exclusiva para, ainda sim, ir embora com vontade de voltar.
     É bem verdade que o dia claro ajudou muito. Em primeiro lugar, por nos deixar contemplar seus imponentes tepuys, platôs remanescentes dos tempos mais antigos da terra e berço das dezenas de rios e cachoeiras espalhados por toda a parte. Nessa época do ano, com o período de férias mal começando aqui na Venezuela, a grande savana é um "privilégio" de poucos (para usar a palavra preferida do jipeiro João Marcos, substituto de João Carlos Nogueira na direção de uma das picapes.
     Nos grandes feriados e férias, as margens dos rios e os imensos campos, segundo garantem os locais, ficam repletos de barracas. Aliás, acampar é a grande pedida por aqui - quase a única. Há alguns hotéis, é verdade, mas sem capacidade para atender à justa demanda. Como a área é protegida contra tudo que possa desfigurá-la, o acampamento é a solução. Por isso, praticamente todos os veículos que trafegam pela rota que vai de Santa Elena de Uairén a Upata carregam tendas em seus bagageiros.
      Os rios são absolutamente limpos, como o que escolhemos para acampar de sexta para sábado. Há cursos d'água de todos os tamanhos. A Grande Savana, com seus 15 mil quilômetros quadrados, tem espaços para todos. Seria o paraíso, segundo a gente daqui, se não fossem o mosquito puri-puri e a Guarda Nacional, tão voraz e endêmica quanto os insetos que infestam a região.

domingo, 22 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 24

O marco da passagem da Linha do Equador

Sexta-feira, 6/08/1999 - Por falar em reservas
     Gran Sabana, Venezuela - Aí vai mais uma admissão de culpa, esquecimento ou coisa que o valha. Como única desculpa, aceno com o número enorme de cenários, personagens e fatos que passaram por nós (eu, Alexandre Viana, João Carlos Nogueira e João Marcos Venturini) nesses primeiros 23 dias de viagem, desde o Rio de Janeiro até Caracas, através do Pantanal Mato-Grossense, Amazônia e Gran Sabana.
     Pois bem. Dois momentos merecem ser citados, cada um deles por razões diferentes. Vamos lá: o primeiro é a passagem pela reserva indígena Waimiri Atroari, no coração do Amazonas, cortada pela BR-174, parte da rota de integração entre o Brasil e a Venezuela. A primeira impressão, na verdade, não é das melhores. Aquela pista de pouso bem no início chega a assustar. Mas em poucos minutos tudo começa a mudar. A floresta amazônica, ou parte dela, corre ao lado da estrada, bem preservada. As placas no caminho não deixam dúvida: todas as riquezas naturais são de uso exclusivo dos indígenas. Que continuem fazendo bom uso delas, como pareceu a todos nós.
     O outro momento marcante, mais pelo simbolismo, foi quando atravessamos o Equador, linha imaginária que divide a terra em dois hemisférios. Há uma praça e um pequeno monumento no lugar, indicando que, naquele ponto, a latitude é zero.

Norte e sul, ao alcance dos pés

     Além, é claro da própria linha, providencialmente pintada na estrada. Um passo para um lado, hemisfério sul; para o outro, norte. Vale uma foto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 23

O acampamento às margens de um rio cristalino da Grande Savana


Sexta e sábado, 5 e 6/08/1999 - O arauto do fim do mundo

     Gran Sabana, Venezuela - De volta à fronteira, depois de conhecer de perto a bela Ciudad Guayana e o Rio Orinoco, ganhamos um presente do vice-cônsul Rubens de Lima Jorge, sediado em Santa Elena de Uairén: a companhia de um guia especial, o nicaragüense Roberto, um conhecedor da região, para nos ajudar a explorar parte desse imenso parque natural que é a Grande Savana.
     Mas como tudo tem um 'preço1, carregamos conosco seu filho, Igor, um corintiano de 11 anos que parece conhecer todas as páginas do almanaque Abril e todos os cinco mil habitantes da pequena cidade fronteiriça, com os quais conversa num espanhol perfeito.
     É na grande savana, dentro do parque nacional Canaima, que estamos nesse momento, às 10 horas da noite de sexta-feira, acampados ao lado de um das dezenas de rios que nascem aqui, depois de ter visto de perto um dos cartões-postais da região, o Rio Jaspe, com seu piso de ... jaspe, uma cobiçada pedra vermelha protegida por decreto (há também pedras verdes e pretas).
     Também vimos, da estrada, ao longe, um dos tepuys (platôs) mais famosos, que se assemelha (com um pouco de boa vontade, é verdade), a um índio deitado.
     Enquanto o índio permanecer deitado, tudo bem. Reza a lenda que ele vai se levantar um dia, e que nesse dia o mundo vai acabar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 22

Quinta-feira, 5/08/1999 - Um rápido perfil da Venezuela

     Ciudad Guayana, Venezuela - A cidade, a meio caminho da fronteira com o Brasil (fica às margens do Rio Orinoco, um dos maiores geradores de energia do mundo, graças ao seu volume de água e geografia), retrata o que pode vir a ser a nova Venezuela sonhada pela população venezuelana (*). Jovem (nasceu há apenas 33 anos), incorporou os atributos de qualquer cidade ocidental moderna: carros mais novos, shoppings, praças bem-cuidadas, ruas e avenidas largas.
     É bem verdade que Ciudad Guayana, que cresceu a partir do embrião chamado Puerto Ordaz, pôde contar com a riqueza dos seus recursos naturais (tem ferro e alumínio, além de gerar energia elétrica). Não está livre, no entanto, dos males que afligem a maior parte do país, engolfado por uma crise que desaguou num inquietante índice de desemprego que beira os 40 % da força produtiva.
     O país, que viveu um momento espetacular na crise do petróleo, sobrevive, hoje, desse passado. O petróleo continua sendo sua maior fonte de renda (50 % da receita). As reservas são enormes, mas os preços oscilam sem que o governo possa interferir.
     Para se ter uma idéia da importância do petróleo na economia venezuelana, basta lembrar que cada dólar a menos na cotação internacional do barril representa um buraco de 700 milhões de dólares nas finanças nacionais. Com as variações na economia mundial, as desigualdades na sociedade venezuelana se acentuaram e hoje há uma enorme esperança de mudanças. É o que a população exige de Hugo Chávez.

(*) As expectativas retratam o momento do país, em meados de 1999.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 21

Ruy Nogueira, embaixador brasileiro na Venezuela em 1999


Quarta-feira, 4/08/1999 - A espinha dorsal da América do Sul

     Caracas - O embaixador do Brasil na Venezuela, Ruy Nogueira, tem uma certeza inabalável: as relações entre os dois países vão se estreitar naturalmente. "Acabou o tempo em que Brasil e Venezuela ficavam de costas um para o outro, separados pela floresta amazônica. A integração entre os dois países é uma realidade", disse Ruy. No cargo há três meses, depois de um longo tempo  à frente do consulado brasileiro em Londres, ele acredita que vai ajudar o Brasil a trazer para o âmbito do Mercosul um vizinho que estava historicamente (*) na esfera de influência dos Estados Unidos.
     "O presidente Fernando Henrique tem uma definição perfeita para a importância do papel da Venezuela na América do sul. Segundo ele, a espinha dorsal do nosso continente passa inexoravelmente por Caracas, Brasília e Buenos Aires (**). E eu acredito nisso", disse o embaixador, anfitrião da equipe do Projeto Integração. "A viagem de vocês mostra que os dois países estão, de fato, ligados fisicamente. Afinal, vocês saíram do Rio e chegaram a Caracas, de carro", destaca o embaixador, que tem, entre suas comendas, a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco.
     O embaixador tem ainda no seu programa de trabalho três projetos que espera desenvolver especialmente agora, com a reafirmação da força política do presidente Hugo Chávez, um entusiasta da aproximação com o Brasil e que obteve uma vitória espetacular nas ultimas eleições legislativas (cerca de 95 por cento dos votos).
     "Meu primeiro objetivo é envolver, de fato, as forças políticas brasileiras no relacionamento entre os países. Em seguida, agilizar os investimentos de pequenas e médias empresas. Paralelamente, queremos estreitar definitivamente a parceria estratégica entre os dois países. Afinal, a Venezuela é um dos principais produtores mundiais de petróleo e a Petrobrás tem planos de participar da exploração".

(*) Bastaram poucos anos para mostrar o perfil da política internacional de Hugo Chavez, em especial a 'integração' com o Brasil de Lula. O texto mantém a visão da época.
(**) Recentemente, no programa Painel, da Globo News, o cientista político Marco Antônio Villa destacou o engano de muitos países em relação às propostas do governo Chavez.

domingo, 15 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 20


Eu, João Marcos, Alexandre Viana, o embaixador Ruy Nogueira (ao centro, sentado) e o diplomata Felipe Fortuna, na entrevista coletiva realizada em Caracas, que repercutiu nos jornais



Terça-feira, 3/08/1999 - Integração repercute em Caracas

     Caracas  -  A repercussão de nossa viagem ao Caribe foi bem grande, aqui na capital venezuelana, graças, especialmente, à participação da Embaixada Brasileira, que formalizou seu apoio ao Projeto Integração Dana. Com a supervisão do secretário de imprensa da embaixada, Felipe Fortuna, a equipe, já sem João Carlos, obrigado a voltar ao Brasil antecipadamente, participou de uma entrevista coletiva sobre o projeto, os veículos, equipamentos. Na coletiva, que contou com a presença de representantes dos patrocinadores da aventura, o embaixador Ruy Nogueira pôde falar da aproximação entre Brasil e Venezuela, do avanço das relações diplomáticas e das perspectivas futuras. Não poderia ter sido melhor.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 19

Segunda feira, 2/8/1999 - Venezuela vive momento histórico
     Caracas - A Venezuela vive amanhã, terça-feira (3 de agosto de 1999), com a instalação da Assembléia Nacional Constituinte, um momento histórico na sua vida (*), talvez decisivo na definição do seu futuro. As esperanças da população (são cerca de 25 milhões de pessoas, um quinto das quais concentradas na capital, Caracas) estão todas depositadas nesse novo momento do país. E isso ficou bem claro há duas semanas, quando a nação em peso votou com o presidente Hugo Chávez, conferindo-lhe uma esmagadora vitória eleitoral: 95 por cento das cadeiras legislativas em jogo. A expectativa em torno da posse é enorme justamente porque o país depende, muito, da reordenação política, social e jurídica que resultará da nova constituição.
     Hugo Chávez também sabe disso. Tanto que jogou todo seu peso político nas eleições passadas. Ele precisa das mudanças para colocar em prática seu projeto político, que tem um ponto crucial e fundamental: a reforma agrária. O Presidente necessita dos instrumentos legais para cumprir suas promessas de, afinal, tirar a Venezuela dessa espécie de letargia em que vive há três décadas, embalada pela enganosa paz dos petrodólares (o pais é um dos grandes produtores de petróleo do mundo).
     Com a economia estagnada e esmagada pelo enorme peso de uma taxa de desemprego que chega, hoje, a inimagináveis 38 por cento, a Venezuela precisa urgentemente de reformas que estimulem a produção (o país praticamente importa tudo que consome) e, consequentemente, aumentem a oferta de trabalho, como apregoa Hugo Chávez. A resposta pode estar chegando.

(*) O texto mantém a visão que o autor tinha na época, quando Hugo Chavez ainda era, de certa maneira, uma incógnita. A avaliação atual pode ser conferida nos textos publicados no Blog.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 18


Domingo - 1/08/1999 - Retratos do Brasil
      Caracas - Alguns personagens, por um motivo ou outro, ganharam destaque nos textos anteriores desse misto de diário e reportagens. Outros, embora também marcantes, ficaram numa espécie de lista de espera. O momento deles chegou.
      A policial - Nós poderíamos esperar qualquer coisa, menos aquela aparição, ali, na meio da Amazônia, mal saídos da reserva Waimiri Atroari. Mas ela estava lá, ordenando nossa parada. Alta, loura, olhos claros, a policial - é isso mesmo, 'A' – parou nosso comboio e, ao contrário das vezes anteriores, quando a curiosidade era a maior motivação dos policiais, deu uma dura.
      Documentos, seta, faróis, luz de freio, um verdadeiro desfile de autoridade e charme. Imaginamos que tenha gasto pelo menos meia hora só para definir o lugar exato do cinturão onde prenderia a algema, transformada num símbolo atávico. Mais afastado, um grupo de policiais observava a performance.
     Amigos, foi um show. Confesso, no entanto, que desejamos, por alguns momentos, ser seus prisioneiros.

Embora um tanto fora de foco, achei que a foto do menino em meio às bananas merece um espaço

      O indiozinho - Tinha quatro anos e a cara mais sem-vergonha do mundo. Apareceu no barco no qual cruzamos o Rio Madeira, acompanhando os irmãos mais velhos, que foram oferecer, de canoa, produtos à tripulação. Ficou espremido entre cachos de banana, fingindo não estar gostando do assédio fotográfico. Dissimulou até que não resistiu e sorriu para nós, como toda criança. O irmão mais velho também fez pose, ao meu lado, com um boné do ... Vasco. No meio da floresta, um 'irmão' de paixão.

Um encontro de torcedores, em pleno Rio Madeira, fotografado por Alexandre Viana

     O antenado - Estávamos parados num posto, em Presidente Figueiredo, cidade a 100 quilômetros de Manaus, famosa por suas belas cachoeiras, quando fomos interrompidos por um menino de dez anos, uniforme de escola, que chegara de bicicleta. "Vocês vão para o Caribe?", perguntou, já afirmando. "Como é que você sabe?", retruquei. "Vi na televisão", sorriu. Estava antenado.

PS: Contornamos a tentação de fotografar nossa musa uniformizada.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Uma aventura caribenha - Capítulo 17

Nossa equipe, com o mar do Caribe ao fundo: o embaixador Ruy Nogueira, João Marcos, eu e João Carlos, em foto de Alexandre Viana

Sábado, 31 de julho - O Rali Venezuelano

     Caracas - Imaginem milhares de carros velhos, velhos mesmo, a maioria caindo aos pedaços ou colada de qualquer maneira. Agora, coloquem esses cacos velhos sob o comando de motoristas que, digamos assim, não ligam muito para normas de trânsito. Mas isso ainda não é tudo. A síntese absoluta desse previsível caos urbano são os taxis, milhares deles, os mais velhos e com os motoristas mais enlouquecidos do planeta. Está formado o quadro para um alucinado e quase sempre perigoso rali urbano (*), que envolve a todos num jogo sem vencedores.
     É claro que há carros novos e outros quase novos. É verdade que há, também, motoristas que respeitam as leis e são, até, gentis. Mas são a minoria.
     A frota venezuelana, em sua base, é formada por quase cinquentenárias barcaças americanas das décadas de 50 e 60, absolutamente sem manutenção. Como a gasolina é muito barata aqui (algo em torno de R$ 0,20 o litro), os venezuelanos usam e abusam. Os carros, desde que se locomovam, vão para as ruas. É verdade que, já nas ruas, param a todo instante, fervendo ou com pneus estourados.
     Muitos também não tem sequer vidros laterais, ou faróis e lanternas em condições (é claro que esse quadro reflete a crise econômica que atinge o país). Nas ruas ou estradas, é muito comum esbarrar (literalmente) com um desses dinossauros largados no meio da pista, algumas sem acostamento.
     Já ia esquecendo: as buzinas de todos eles funcionando otimamente. Acredito que buzinar seja um elemento cultural desse simpático pais, recheado de gente amável e hospitaleira - fora das ruas, é claro.

(*) O perfil da frota e do comportamento dos motoristas foi feito há 12 anos.