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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Histórias de Júlia e Pedro (61)

Promessas

     É claro que Júlia e Pedro não perderam a criatividade e a capacidade de nos surpreender com perguntas, respostas e questionamentos especiais. Longe disso. Aos 11 e sete anos, respectivamente, estão cada vez mais aguçados, críticos e ... engraçados. Hoje, Flávia, a mãe desses dois moleques nos contou a mais recente história de Pedro, que eu passo a contar a seguir.
     Depois de um fim de semana absolutamente corrido, tentando colocar trabalhos em dia, minha filha se deu conta, pela manhã, pouco antes de Pedro ir para a escola, que esquecera de fazer o trabalho de casa com ele. Preocupada e sentindo-se culpada, escreveu um bilhete para a professora e disse a Pedro que se desculpara e garantira que isso nunca mais iria acontecer.
     Com seu jeito irônico de ser, Pedro não perdeu tempo em responder:

- Eu acho que ela não vai acreditar nisso, mamãe. Você prometeu a mesma coisa na outra vez que eu esqueci de fazer o trabalho.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Histórias de Júlia e Pedro (60)

Lógica aplicada

     Não foi, certamente, por falta de 'material'. Mas admito que há algum tempo não reproduzo, aqui, as histórias de Júlia e Pedro (João Pedro ainda não protagoniza esse tipo de caso). Vou me penitenciar contando a mais recente sacada de Pedro, um moleque encantador, de verdade.
     Não sei se já contei que ele saiu da escolinha onde passou os últimos quatro anos e começou nova fase da vida, aos seis anos, no ensino fundamental. Uma fase que inclui trabalhos para serem feitos em casa. Uma das tarefas mais recentes envolvia conceitos, tipos de moradia. E ele fez questão de dizer à mãe que já conhecia todos:
     - Casa, apartamento, restos ...
     - 'Restos', Pedro? O que vem a ser isso", questionou Flávia.
     A explicação veio prontamente, com o auxílio de gravuras:
     - Aqui, mamãe: uma casa, um apartamento e os restos ...
     Fez-se a luz: eram 'sobrados', palavra que ele desconhecia e que entendeu como sobras, os restos ...

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (59)

O 'menino-canguru'

     Não chega a ser uma história, completa, de vários parágrafos, mas vale por uma, certamente. O tema é a paixão de Pedro pela mãe, Flávia, que fica cada dia mais apurada. Há alguns dias, o moleque interrompeu um inusitado silêncio e perguntou:
     - Mamãe, por que nós não somos cangurus?
     - Porque somos humanos, Pedro. Você queria ser um canguru?
     - Sim. Para ficar dentro da sua bolsa ...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (58)



Pedro, na barra: não aceita ajuda para escalar, flexionar e atravessar de lado


Moleque olímpico

     Pedro vem nos surpreendendo com uma determinação invejável na escolinha de ginástica olímpica (acho que o nome é esse ...) do Fluminense. Acorda disposto e não reclama da dureza dos exercícios comandados pelo professor Ceará. Ao contrário: procura seguir rigorosamente as determinações.
     Recentemente, na sua última vez que esteve aqui na Pedra, fomos dar um passeio na Praia da Brisa, onde existem alguns aparelhos de ginástica que ele já conhecia. Muito sério, fez alguns alongamentos e lá se foi paera as barras paralelas, barra e prancha de abdominais.
     E continuo se exercitando, mesmo depois da chegada de alguns jovens atletas, que começaram a fazer seus exercícios. Quando via que um dos aparelhos estava ocupado, pedia para eu abrir o 'caminho', falando com alguns dos rapazes. E não admitia que eu o ajudasse a escalar as laterais do aparelho mais alto:
     - O Ceará disse que é para fazer o exercício sozinho!
     Na volta para casa, já no carro, depois de eu ter elogiado sua performance, olhou para mim e disse, com ar bem grave:
     - Vovô, eu quero ir numa Olimpíada.

domingo, 7 de abril de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (57)

Caretas e aventuras

     Flávia acabou de contar, para 'todos' os seus amigos, o mais recente episódio envolvendo a criatividade de Pedro. Vou me permitir repetir a história, aqui nesse pedaço do Blog que é dedicado a ele e a Júlia.
     Depois de ter pedido, no ano passado, um cantil de presente de Natal, ele está se superando. Já sabe o que vai querer no fim do ano: um GPS, para não se perder nas aventuras que sonha fazer, entre elas uma incursão ao Jalapão, lugar que já 'conhece', por tanto ouvir falar das viagens que eu e o tio Gui (Guilherme, marido da tia Fabiana) fizemos nos últimos anos.
     Aos cinco anos e meio, o moleque está muito engraçado (eu sei que isso é coisa de avô ...). Hoje, por exemplo, aprontou, na ida ao posto da Polícia Federal, para tirar passaporte. Ao ser chamado para a fotografia, saiu-se com essa:
     - Não quero, muito obrigado!
     Não satisfeito, já sentado para a tal foto, quando solicitado, pela mãe e pelo pai, a fazer "uma cara bonita", enfiou os indicadores na boca, puxou os lábios e colocou a língua para fora.

domingo, 31 de março de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (56)

Palavras e palavrões
     Os pátios de colégios e as vans de transporte ampliam conhecimentos, especialmente o vocabulário. Júlia, por exemplo, nos contou ontem que já sabe "seis palavrões", e fez a ressalva: "Mas eu não falo!". Não fala mesmo e ainda recrimina - em tom de brincadeira - a tia Fabiana, que não sabemos como desenvolveu a atual 'flexibilidade' vernacular.
     Pedro também não fala. Não está acostumado a ouvir. Mas dá sinais de que gosta. Anteontem, perguntou à avó o que era "babaca'. Ouviu que não era um palavra muito bonita, que era melhor dizer boboca, bobão etc.
     Ficou sério por um instante e retrucou, definitivo:
     - Mas se a pessoa for babaca?

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (55)

Delivery  inusitado

   Pedro é bem levado - ainda bem! E não perde oportunidade para fazer uma graça, falar bobagens. Há algum tempo, entrou na fase 'escatológica' mais comum nos meninos do que em meninas. Adora usar e abusar de algumas palavras, como cocô e assemelhadas.
     Ontem, em meio a uma exibição de saltos e cambalhotas, ouviu-se uma sequência de 'flatos'. Sem conter o riso, a avô questionou, em tom de blague:
     - Pedro, o que foi isso?
     A resposta veio de imediato, com a criatividade que ele sem demonstra a todo tempo:
     - Três puns, um extra e outro para viagem. Cinco puns!
     Foi uma gargalhada geral. Pum para 'viagem'.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Histórias de Júlia e Pedro (54)

O livro de Júlia, talvez um aperitivo


     Projetos para 2013

     Júlia, que nos presenteou no Natal com um livro escrito e ilustrado por ela, já definiu seus planos e sonhos para 2013, um dos quais - comum a milhões de crianças - é ir à Disney e à Universal. Mas o mundo de Júlia não é só de fantasias.
     Outra de suas metas é - como ela escreveu em um caderninho que acaba de ganhar - "ir bem na escola", repetindo - e isso sou eu que estou ressaltando - o que vem fazendo ao longo dos anos. Afinal, ela está entrando na quarta série do ensino fundamental, um momento decisivo para a garotada da sua idade, especialmente no Pedro II.
     Mas os planos vão além. Outro destaque de seus projetos é "escrever um blog". Isso mesmo. Júlia quer contar suas histórias para um público além da família. Por mais que nós - os pais e eu, em especial - tenhamos uma certa restrição, acho que ela tem o que poderíamos classificar de 'perfil do jornalista'. Olho para ela e vejo a mãe.
     Não por acaso, duas de suas brincadeiras favoritas, quando ainda mais nova do que os nove anos que ostenta hoje, eram fazer 'entrevistas' e 'bater matérias', imitando principalmente a mãe, que ela acompanha em sua faina diária de reportagens para os mais diversos veículos, sobre os mais diversos temas.
     Desde já me candidato a ser um dos seguidores mais fiéis desse provável futuro blog. Júlia certamente terá muito a nos contar.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (53)


Pedro, ao estilo aventura, com Cléo, ao fundo, sua companheira inseparável


     O menino aventureiro

     Natal também é sinônimo da brincadeira de 'amigo oculto'. Júlia já participa ativamente há alguns anos. Pedro está fazendo sua estreia, de fato. E não teve dúvidas em escolher o presente que gostaria de ganhar: um cantil. Isso mesmo, um cantil, daqueles de aventureiros, de verdade, com capa verde e passadeira para o cinto. Igual ao que eu e o 'tio Gui' (marido de Fabiana, irmã de Flávia) usamos nas nossas muitas incursões ao Pantanal, Chapadas e Jalapão. Incursões que ele sonha fazer conosco. O cantil que está usando, na foto da nossa penúltima 'aventura', é o meu, que dei para ele. Mas o moleque quer um dele, de fato e de direito.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Histórias de Júlia e Pedro


A bisa Dalva, Júlia e Pedro, molequinho ainda.

Júlia, a bisa e as estrelas

'Do nada', como ela costuma dizer, lembrei de mais uma passagem de Júlia. Talvez em função do noticiário sobre Oscar Niemeyer. Ela e minha mãe - a sua "bisa" - tiveram a grande oportunidade de conviver por pouco mais de cinco anos. Lembrando das duas, brincando, não tenho dúvidas quanto ao encantamento da relação entre um bisneto e sua bisavó.

A 'bisa' tinha nos deixado há pouco tempo quando aconteceu o que me proponho, agora, a contar. Júlia ainda estava na pré-escola quando, por algum motivo, no grupo de crianças, a morte - algo abstrato para a garotada - apareceu na conversa. De modo didático, a professora apenas intermediou a troca de ideias, relatos.

Em determinado momento, alguém perguntou o que acontecia com as pessoas que morriam. Júlia levantou o dedinho e, lembrando da Bisa Dalva, afirmou:

- Eu sei: vira uma estrela.

Foi aplaudida por todos os amiguinhos.

sábado, 8 de setembro de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (51)

     Educação aprimorada

     Sábado, em meio ao feriadão, com os moleques aqui na Pedra, é certeza de momentos engraçados, alegres. Vamos a um dos que nos fizeram rir muito.
     Pedro acabara de dar um 'sacode' em Júlia, que, apesar de quatro anos mais velha, de quando em vez leva a pior nessa saudável (eventualmente bélica) relação entre irmãos. E, como sempre, aproveitou a oportunidade para se queixar do moleque, fazendo um drama caseiro.
     De qualquer modo, os país não poderiam deixar o momento sem uma referência, uma admoestação. Dessa vez, coube ao pai, Fábio, dar a bronca devida (normalmente a tarefa é de Flávia):
     - Pedro, não pode bater na sua irmã. Você entendeu? Pomete que você não vai bater mais.
     O moleque, que estava comendo umas uvas na hora na briga, ficou calado, como se não tivesse escutado. O pai insistiu:
     - Pedro, promete que você não vai bater de novo!
     A resposta foi a mais criativa e sincera, na medida do possível;
     - Eu não posso falar de boca cheia!

domingo, 19 de agosto de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (Capítulo 50)

O 'nosso' umbigo    

     Não estava me sentindo muito bem. Uma ligeira dor de cabeça, mas suficiente para me fazer optar por me afastar um pouco da saudável bagunça familiar (estávamos reunidos na casa de Fabiana, para comemorar o Dia dos Pais, com atraso de uma semana - Flávia estava em Londres, trabalhando na Olimpíada), dar uma recostada e fechar os olhos, aproveitando a penumbra de um dos quartos.
     Pedro, em uma das passadas pelo corredor, me viu e foi logo falar comigo:
     - O que é você tem, vovô?
     - Nada de mais moleque, dor de cabeça ...
     Com aquele jeito carinhoso que sempre teve comigo, desde bebê, me deu um beijo, um abraço e deitou ao meu lado. Falamos um pouco dos projetos de uma pescaria (o moleque fica sonhando com essas 'aventuras') e ele saiu, convocado a participar das brincadeiras com Júlia, a mãe, a avó e as tias, Fabiana e Paula, prima de direito, mas tia de fato.
     Não demorou muito e voltou. Mais um beijo e uma demonstração de carinho que só nós dois poderíamos entender e que vou tentar explicar.
     Desde muito pequeno, Pedro - como outras crianças - tem o hábito de coçar o umbigo e eu, desde sempre, me habilito a fazer o mesmo, brincando com ele, que adora. Todas as vezes em que nos encontramos, eu pergunto pelo 'meu' umbigo, e beijo, mexo, faço um carinho.
     Pois ontem, não precisei pedir. Vendo que eu não estava como habitualmente, subiu na cama e levantou a camisa, sabendo que seria um remédio infalível:
     - Vovô, olha o meu umbigo!
     Não há dor de cabeça que resista.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (Capítulo 49)

Os bebês crescem ...

     Confirmei, sexta-feira passada, que Pedro já não é um bebê. Ele já vem dizendo isso há 'algum tempo' - "Eu já tenho cinco anos, vovô!!!" -, mas eu finjo que não escuto. Assim como ignoro solenemente o fato de Júlia já estar calçando 32, estar quase do tamanho da babá que a acompanha (e a Pedro, mais tarde) desde o berço e já ter e-mail. É verdade. Depois de uma longa resistência materna, Júlia conseguiu ter seu próprio endereço eletrônico, seguindo o passo das amigas, que já haviam conquistado esse direito há algum tempo.
     Quando soube da novidade, a tia (Fabiana, irmã de Flávia) teve uma reação que sintetiza nossas emoções: "Para de crescer, Júlia!". Como se fosse possível. Há alguns meses, depois de eu ter manifestado algo semelhante, ao 'lamentar' o quanto ela já estava desenvolvida, quase entrando na pré-adolescência, a resposta foi direta e com o jeito dela: "Vovô, a vida é assim mesmo ...", disse, com a sabedoria dos seus quase completados nove anos..
     Pedro também reage, bem-humorado, quando eu o trato como um bebezinho. E conquistou ainda mais motivos sexta-feira, como eu comecei a contar lá em cima. Estávamos no aeroporto, acompanhando a mãe, que iria voar para Londres, para se incorporar à equipe de imprensa do Comitê Olímpico Brasileiro, na cobertura da Olimpíada, quando ele disse que queria "fazer xixi".
     Sem pensar muito, peguei o moleque pela mão e entramos no banheiro masculino. Pinto para fora, ele não teve dificuldade alguma para acertar mictório, mantido a uma distância segura. A mesma louça que todos nós, homens, usamos.
     Fraldário? Já era. O moleque está ficando um rapazinho.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (Capítulo 48)

     A pequena 'mamãe'

     O amor de Júlia por Pedro e de Pedro por Júlia encanta. É claro que há brigas, provocações e tudo o mais que se espera entre dois irmãos sadios e que competem pelas mesmas pessoas, atenções e espaços. Mas estão sempre juntos e sentem muita falta um do outro.
     Pedro sempre teve na irmã uma referência para tudo. Apesar de ser quatro anos mais velha (está completando nove anos este mês), Júlia brinca muito com irmão, lê para ele, ensina a fazer determinadas tarefas. E trata o irmão como um bebê, desde sempre.
     Como resultado dessa relação, Pedro passou pelo menos três dos seus cinco anos chamando Júlia de "mamãe pequena", quando necessitava de ajuda ou queria companhia. De algum tempo para cá, havia parado com o tratamento diferenciado, não com o carinho. Afinal, já estava ficando grande, quase cinco anos.
     Há uma semana fomos surpreendidos com a volta da 'mamãe pequena' à cena de brincadeiras e chamegos. A explicação era óbvia: ele, inconscientemente, já estava transferindo parte da dependência emocional que tem da 'mãe grande'.
     Ele sequer toca no assunto, mas sabe e sente que está chegando o dia em que a mãe, Flávia, vai viajar para Londres - com o COB, para cobrir a Olimpíada - e ficar longe dele por longuíssimos 25 dias. Na última vez em que foi confrontado com a realidade - a viagem da mãe, que se aproxima -, foi incisivo, na sua inocência: "Eu só deixo você viajar um dia, mamãe. Um dia!".
     E se agarrou, a partir daí, à sua 'mamãe pequena'.

domingo, 17 de junho de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (47)

     Vida sem mistérios

     Ontem foi dia de Pedro e sua bota destinada a aventuras. Hoje, vou contar uma história bem recente, fruto de um diálogo entre Júlia e a mãe, Flávia. Confesso que, para meu alívio, não precisei passar por um momento semelhante, naturalmente incluído no 'contracheque' das mães, para o bem de todos nós, pais, especialmente de meninas, como é o meu caso.
     Júlia sempre soube de onde vinham os bebês. E acompanhou dia a dia o crescimento da barriga da mãe, grávida de Pedro. Aos quatro anos, para ela era absolutamente natural que bebês crescessem na barriga das mães. Nunca houve dúvidas. Tudo sempre foi muito simples.
     Mas - e esse 'detalhe' é fundamental - ela só tinha quatro anos quando o irmão nasceu. Uma idade em que ainda não há questionamentos mais profundos. Mas aos oito, quase nove, como agora ...
     - Mamãe, eu sei que os bebês vêm da barriga das mães. Que nascem de uma sementinha. Mas como é que a sementinha chega na barriga?
     Pânico? Não chegaria a tanto. Mas Flávia admite que ficou sem ação, no primeiro momento dessa conversa que ela sabia inevitável, mas que não tinha ideia de quando surgiria. Mas só havia uma resposta possível, a mesma que ela teve quando se questionou. A mesma que deu a Fabiana, mais nova quatro anos, quando a irmã fez pergunta semelhante: a verdade.
     - Júlia, é o papai quem coloca a sementinha na mamãe, você já sabe. E por onde é que você acha que ela pode entrar?
     - Pela 'perereca'?
     - É. E de onde ela pode vir? Então ...
     Não teve tempo, nem precisou continuar. Júlia, com o jeito que eu insisto que é só dela, resolveu a situação:
     - Então, tem que 'transar' para ter filho?
     - Tem, Júlia. Como é você sabe disso?
     - Eu conversei com uma amiga na escola.
     E a conversa seguiu em frente, naturalmente, sem traumas, sadia, com direito à leitura, em conjunto (mãe e filha) de um livro, ilustrado, sobre o 'mistério' da vida.
     Júlia é assim.

sábado, 16 de junho de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (46)

     Pronto para aventuras

     Pedro, que completou cinco anos ontem, acostumou-se a ouvir histórias e ver fotos das minhas viagens ao Pantanal, Jalapão, Chapadas, Grande Savana venezuelana, Patagônia (muitas com direito a acampamento na beira de rios etc) e outras menos - digamos - radicais. E, como todo moleque, já sonha com cachoeiras, mergulhos em rios, jacarés.
     Há alguns dias, ganhou um par de botas semelhante a um que eu tenho e uso nas minhas viagens. E não tirou mais as tais botas dos pés. Semana passada, quando esteve por aqui, na Pedra, para passar o fim de semana, pediu para ver meus calçados, as botas em especial.
     Olhou bem e foi tachativo: "São iguais, vovô". Concordei, lógico. Assim como fechei, com ele, um acordo que já temos há algum tempo e que ele relembrou:
     - Vovô, eu já tenho a bota e vou fazer cinco anos. Depois do meu aniversário eu já posso fazer aventuras com você.
     É claro que sim. O Jalapão nos espera, moleque.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (45)

Maratona literária
     De repente Pedro descobriu que a irmã, Júlia, não dormiria em casa. Ela passara parte do dia na casa de uma amiga do colégio e pediu para continuar por lá, brincando. A reação foi imediata:
     - Mamãe, vamos buscar a Júlia.  A...go... ra!!!
     Flávia ponderou, explicou que a irmã e a amiguinha queriam aproveitar o sábado e que na manhã seguinte ela viria para casa. Uma noite, apenas. Não adiantou. O moleque chorou, brigou e insistiu até o limite.
     Para tentar contemporizar, a mãe prometeu que leria quantos livros ele quisesse, na hora de dormir. Pedro foi até sua estante de livrinhos e pegou ... seis. É isso mesmo: seis. Flávia leu o primeiro, o segundo e o terceiro. No fim do quarto livro, uma hora depois de iniciada a maratona literária, já não aguentando mais, deu um bocejo, um quase cochilo. Pedro, atento, não perdoou:
     - Eu não disse a você que era melhor buscar a Júlia?

domingo, 29 de abril de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (44)




Esse desenho, feito há quase quatro anos, adorna uma de nossas portas. Na visão de Júlia, representava a casa da Pedra, com passarinhos, e seu carinho por nós. 


Júlia e a 'bisa'

     Júlia fica mais doce a cada semana. Há alguns anos - uns dois - limitava meus beijos a cinco por dia, sabendo que eu iria pedir muitos mais. Na última vez em que esteve aqui na Pedra, saiu do carro dos pais diretamente para meu colo.
     Na verdade, carreguei os dois, ela e Pedro, um em cada braço, como já não fazia há um bom termpo (viva a competição entre netos!!!). A coluna reagiu, é claro, mas o coração compensou, com sobras, o 'esforço' de levá-los da garagem à varanda. E há sempre um estoque de comprimidos de Dorflex à mão, para eventualidades.
     Na semana que acaba de passar, ela aproveitou um tarde livre para sair à toa com a mãe. Tomaram sorvete, olharam vitrines, usaram o metrô. Na rua, durante uma conversa daquelas entre mãe e filha, Flávia disse a ela que pediria à vovó Isis para fazer um ajuste qualquer (não entendo bem dessas coisas) em uma de suas calças compridas, a que está reagindo melhor ao seu desenvolvimento.
     - Mamãe, a vovó resolve todas essas coisas, não é?
     - É Júlia, mas eu acho que a 'vovó Flávia' não vai saber resolver ...
     A resposta, com aquele sorriso que é só dela, veio na forma de uma declaração de amor:
     - A 'bisa Isis' resolve, mamãe.
    
     (*) Júlia teve a alegria de conviver com minha mãe, a "bisa Dalva", por quase cinco anos.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (43)

Desculpas entre os dentes

     Vinha relutando em contar mais essa história protagonizada por Pedro. Flávia, a mãe, ponderou, com alguma razão, sou obrigado a reconhecer, que não é das mais - digamos - edificantes, pois poderia ser encarada como uma certa conivência com uma daquelas má-criações que ela repreende sempre. O que não é verdade. Embora doce, Flávia não transige, assim como não transigíamos com ela e Fabiana (especialmente!!!), embora os risos disfarçados.
     Tentei - e o tempo passado entre o ato e esse texto (duas semanas) é a maior testemunha. Mas acabei cedendo, até por que eu acho que o moleque não teve - de fato - a intenção que lhe foi atribuída. Para mim, apesar de todas as evidências relatadas pelas testemunhas, houve uma espécie de 'movimento involuntário da mão' que acabou no braço da babá, e não um ... tapa ou algo parecido. Dito tudo isso, vamos à história.
     Pedro já estava atrasado para tomar banho e mudar a roupa para ir à escola. Ele normalmente vai com prazer. Gosta dos amigos, das brincadeiras, da professora. Mas, nesse dia, estava ligado em uma brincadeira qualquer e ignorava as chamadas do misto de babá e avó precoce, a mesma que ajudou a criar Júlia e que ajuda a embalá-lo desde que ele nasceu.
     A babá chamava, a mãe falava e o moleque sentado, ignorando. Até que Sônia resolveu pegá-lo no colo, para levar para o banho. Foi nessa hora que a mão 'pulou' e acertou seu - dela, babá - braço. A bronca foi imediata, promessa de castigo e a exigência, feita pela mãe, de que ele pedisse desculpas.
      Depois de algum tempo, o pedido saiu, meio entre os dentes, olhando para o teto, mas saiu:
      - ... culp...".
      Não foi suficiente. Ele precisava completar com uma promessa: não faria mais isso. E, aí, criou-se um complicador. Sério, com a cara fechada, Pedro, com a maturidade dos seus quatro anos, ponderou:
     - E se eu esquecer?
     - Você não vai esquecer, Pedro", decidiu a mãe. - Você é um menino inteligente e não esquece essas coisas. Então, prometa que não vai repetir isso.
     - Mas mamãe, eu posso esquecer ...".
     Tomou banho, mudo, trocou a roupa e saiu. Ainda no elevador, olhou com um olhar atravessado para a babá - a quem adora e que revelou essa parte rindo, encantada com a travessura - e disparou:
     - Idiota.
     E mais não disse até chegar na porta da escola, a 15 minutos de caminhada.

domingo, 8 de abril de 2012

Histórias de Júlia e Pedro (42)

As descobertas

   Júlia está crescendo, mesmo. E amadurecendo, de um jeito absolutamente infantil, puro, gostoso de acompanhar. Mantém toda a doçura da infância - afinal, só tem oito anos e meio - e acrescenta, dia a dia, a experiência e conhecimentos que vai adquirindo. Lembro - e sempre me pego sorrindo - do dia em que me disse que já conhecia "muitos palavrões", quase todos aprendidos no trajeto entre a casa e o colégio, a bordo do transporte escolar que reúne uma turma que vai dos sete aos doze anos.
     Semana da Páscoa, com a expectativa de ganhar uma penca de ovos de chocolate - pais, avós e tios - chegou perto da mãe, sorrindo com seu jeito moleque, e comentou:
     - Mamãe, coelhinho da páscoa não existe, não é? Você e a vovó é que colocam as pegadas no chão, com talco ...
     - É isso mesmo. Mas é o espírito da comemoração, a fantasia. Como é que você descobriu?
     - Mamãe, eu vi você pesquisando preços de ovos na internet ...
    
     A conversa sobre descobertas da pré-pré-adolescência poderia ter terminado por aí. Mas Júlia sorriu, mais uma vez, e questionou?
     - Mamãe, Papai-Noel também não existe, não é? Você e o papai compram os presentes.
     - Somos nós, sim, Júlia. Mas é o mesmo espírito. O Natal tem esse simbolismo - continuou Flávia. - Mas você não pode contar para seu irmãozinho. Ele ainda tem quatro anos. Nem na hora de uma briga. Ele é pequeno, gosta de acreditar.
     A resposta saiu bem no estilo de Júlia:
     - Mamãe, você acha que sou má, assim?