sábado, 4 de junho de 2011

Veja espreme Palocci ainda mais

     A revista Veja, a julgar pelo conteúdo da edição que chegou hoje aos assinantes, acaba de dar o tiro de misericórdia no moribundo ainda ministro da casa Civil, Antonio Palocci. Morar 'de aluguel' num apartamento avaliado em R$ 4 milhões e cuja taxa de condomínio passa de R$ 4,5 mil mensais, por si só, já um absurdo. O fato de esse apartamento, oficialmente, pertencer a dois jovens que não ganham, sequer, para viver é um algo desqualificante.
     Segundo a Veja, os dois supostos proprietários do tal apartamento confessaram ser 'laranjas', aquelas pessoas que assumem o lugar de outras que precisam ficar ocultas. E que jamais receberam um real sequer pelo 'aluguel' dos seus (?) imóveis.
     O ministro, através da sua assessoria, divulgou nota garantindo - adivinhem? - que não sabia de nada, que fez o contrato com uma imobiliária e que vem cumprindo tudo direitinho. Não há sinal, na nota, de indignação, de surpresa, de 'vamos tomar providências contra o ilícito'. Afinal, esse negócio de exploração de 'laranjas' cheira a crime, falsidade ideológica.
     Coincidentemente, um dos 'laranjas' trabalhou na prefeitura de Mauá - cidade onde mora, num casebre - que é administrada pelo ... PT, é claro!!! Ele seria o 'sócio majoritário' (99,55 das cotas) de uma tal Lion Franquia e Participações Ltda, a dona do apartamento. O outro 'sócio'? Um menino de apenas 17 anos.
     Essa gente não jeito, mesmo.

Não há justificativa para o vandalismo

     Quase sempre discordo do governador Sérgio Cabral. Uma das nossas poucas concordâncias - talvez a única, até agora - é o amor pelo Vasco, que ele herdou do pai, assim como o nome.. No caso da insurreição dos integrantes do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro - que invadiram o quartel-general da corporação (centenas deles armados), usaram mulheres e crianças com o escudo e causaram sérios ferimentos em um oficial da Polícia Militar, ainda ontem à noite -, tenho que concordar: foi um ato de vândalos.
     Greve é um direito de todo trabalhador (eu participei de, pelo menos, duas), mas há regras, normas impostas não apenas pela legislação, mas pela lógica, pelo respeito. Se o empregador - no caso, o Estado - não atende às reivindicações - e as dos bombeiros são justas, por sinal -, há mecanismos para levar o pleito adiante, lutar por ele. Invasões e uso de armas - violência, em síntese - não são instrumentos ideais em uma democracia.
     Nesse episódio lastimável, houve, sim, uma clara e manifesta insubordinação. Os bombeiros, instituição com uma história exemplar, com suas atitudes recentes, mancharam seu passado. Corporações militares, ou 'quase', como o Corpo de Bombeiros, sobrevivem e se afirmam graças, em especial, ao respeito pela hierarquia.
     Ao invadirem um dos prédios mais belos da cidade, igualaram-se aos irresponsáveis que destroem plantações, assaltam fazendas e arrasam pesquisas científicas.
     Ganham pouco, não há dúvida. Mas nem por isso têm o direito de transgredir a lei.

Palocci continua sangrando

     Os insistentes pigarros do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, durante a entrevista concedida à TV Globo, ontem à noite, foram mais incisivos do que suas respostas. Embora tenha procurado controlar as reações, mantendo o tom de voz calmo, como se estivesse dando uma consulta a um paciente, o ainda ministro não conseguiu reprimir a manifestação nervosa, principalmente no início.
     O resultado foi o que todos os jornais e analistas expuseram: Palocci não conseguiu convencer, embora tenha se mantido firme na tese de que tudo o que fez está devidamente registrado; não há pendências com a Receita Federal; e encerrrou as atividades da sua empresa de consultoria, a Projeto, antes de se tornar ministro.
     Ele e seus assessores sabem que essas questões jamais estiveram em discussão. Os questionamentos passam por outros caminhos, que Palocci fez questão de não trilhar na entrevista de ontem, escapando por atalhos, desvios.
     Entre os piores momentos, destaco o modo ligeiro com que tratou dos tais R$ 10 milhões que recebeu em apenas dois meses, por concidência logo após a eleição da presidente Dilma Roussef. Segundo o ainda ministro, essa dinheirama foi paga em tão pouco tempo porque contratos de três ou quatro foram encerrados. Os clientes, então, quitaram de uma vez. Mas se os serviços ainda não tinham sido realizados, não havia motivo para o pagamento.
     Palocci também manteve em segredo os clientes e serviços prestados. Teve, ainda, a coragem de dizer que os resultados da sua consultoria eram compatíveis com os serviços prestados. E fez um enorme esforço para desvincular os problemas, do Governo. Certamente uma das exigências a que teve que se submeter.
     Manteve-se aferrado, paralelamente, ao script que destacava o sucesso da sua empresa. Chegou a mencionar o sócio. Na verdade, o ministro detém 99,9% das ações. O restante era de sua mulher e passou recentemente para um economista amigo, que sequer mora no Brasil. A Projeto, vê-se claramente, era ele. E mais nada.
     A julgar pelas reações que provocou, a entrevista de Palocci à TV Globo apenas adiou o fim já anunciado. Já há, até, nomes, para seu lugar. O 'Pelé das consultorias', segundo seu ex-chefe, está muito perto de encerrar a carreira.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Governo fabrica notícias e 'esquece' a crise

     A capacidade de gerar notícias é uma arte. Uma arte levada às últimas consequências na 'era Lula', que começou há pouco mais de oito anos e, por enquanto, não tem data marcada para acabar. Se algo vai mal, inventa-se que o país é autossuficiente em petróleo. Ninguém vai discutir, mesmo. Se o ministro da Casa Civil sangra diariamente, que tal 'anunciar o anúncio' do lançamento da segunda fase do 'programa' Minha Casa, Minha Vida? Um número? Vá lá: dois milhões de residências.
    "Mas a primeira fase ( um milhão de casas) não chegou, sequer, à metade do previsto ...", poderia ponderar um pagador de impostos menos alienado. E daí? Alguém se dá ao trabalho de contar? A notícia já circulou e ainda vai circular, com a superficialidade que se tornou absurdamente comum nos noticiários. Basta ouvir o Jornal Nacional, por exemplo. Não há ponderações. As notícias desse tipo são lidas mecanicamente, e se transformam em verdades.
     A presidente Dilma Roussef sabe disso. Viveu intensamente os fatos e factoides despejados na 'mídia' pelo ex-ministro Franklin Martins, atual companheiro de viagens do ex-chefe, recentemente convocado ao Palácio do Planalto. Hoje, de acordo com O Globo, a presidente aproveitou o batismo de uma plataforma de petróleo para disparar mais essa fantasia, com aquele seu jeito peculiar de falar: "Nós vamos continuar construindo o Minha Casa, Minha Vida. Na metade deste mês, nós vamos lançar o Minha Casa, Minha Vida 2, construindo mais dois milhões de moradias para a população brasileira", disse.
     Segundo O Globo, Dilma teria "afirmado" ainda que o Brasil mudou. "E eu quero dizer para vocês: vai continuar mudando. Nós vamos continuar gerando muitos empregos, nós vamos continuar fazendo os programas que levaram este país a um nível de desenvolvimento que é um exemplo para o mundo."
     Viram bem? A presidente 'afirmou' que o país mudou. E usou uma estranha formatação para falar sem dizer absolutamente nada: " ... nós vamos lançar o Minha Casa, Minha Vida 2, construindo mais dois milhões de moradias".
     E assim nós vamos vivendo.

Uma aventura caribenha - Capítulo 31

Seu Chicão preferiu ser fotografado de longe, na ponte de comando


Quarta-feira, 11/08/1999 - A velha guarda dos rios
 
      Rio Amazonas, nas proximidades da divisa do Amazonas com o Pará - Se tivesse nascido no Rio de Janeiro, teria muita chance de ser da velha guarda de uma escola de samba. Como nasceu no interior do Pará e acabou de se criar na beira do cais de Belém, "seu" Chicão faz parte do que ele mesmo chama de "velha guarda dos rios".
     Seu Chicão (58 anos) é o comandante do NE XXII, o empurrador que nos transporta e a uma balsa carregada de caminhões para Belém. Um comandante cheio de histórias e lembranças. Para começar, seu nome não é Francisco, como sugere o apelido, e sim João Magno de Lima. "Eu herdei o apelido do meu pai, um mulato muito grande e forte. Sou Chicão desde cedo, por causa dele", conta.
     Nasceu em Iripuia, décimo-terceiro filho (caçula) de uma família muito pobre. Viveu nu até os doze anos. "Nu mesmo. Só botei roupa quando os pelos começaram a aparecer". Viu os doze irmãos e a mãe morrerem e um dia, aos 16 anos, tomou o rumo de Belém, com a única roupa que dispunha, uma jardineira. "Usava o dia inteiro e lavava a noite. Dormia nu, numa proa de barco, no porto."
     Um dia, em Belém, conheceu o pai. "Ele estava falido e bebia muito. Mas mesmo assim fiquei com ele". E aí sua vida começou a mudar. Um amigo do seu pai o chamou para trabalhar embarcado. Aceitou na hora. Ganhou roupas novas e um novo caminho. "Fui trabalhar, depois, num barco a vapor que fazia a rota para Xapuri, no Acre. Levava 35 dias. A gente navegava pelos rios Amazonas, Purus e Acre. Era uma vida dura."
     Numa dessas longas viagens, o barco de seu Chicão ficou dez meses encalhado, no Acre. Foi então que conheceu a mulher, filha de um seringueiro. Casou em Belém, com festança a bordo de um vapor. Tem seis filhos, três homens e três mulheres, uma delas engenheira civil. "Ela não gosta muito que eu conte essas histórias", revela.
     Seu Chicão conhece o Rio Amazonas como ninguém. Sabe de cor os nomes de cada recanto, a profundidade, atalhos e perigos. Já vai longe o tempo em que precisava cortar capim para os bois que eram usados para alimentar a tripulação durante a viagem. "Os bois eram sacrificados ali mesmo, a bordo".
     Ele é piloto, com carteirinha, há cinco anos. No total, são quase quarenta anos passados a bordo das mais variadas embarcações. Experiência de sobra. Agora mesmo, no meio de uma longa conversa no convés do empurrador, apontou para o horizonte e alertou para a chuvarada que estava se aproximando. Mal deu tempo de recolhermos as tralhas e entrarmos nas barracas montadas nas caçambas das nossas picapes.

Lula e Dirceu na ilha dos irmãos Castro

     A foto já chamara a minha atenção, ontem, ao passear pelo noticiário on line dos grandes jornais e revistas. No primeiro plano, um sorridente ex-presidente Lula (acabara de fazer, nas Bahamas, mais uma de suas regiamente pagas palestras) aparece ao lado de Raul Castro, o ditador de plantão em Cuba, durante visita à ilha e às obras que estão sendo financiadas pelo nosso BNDES. Ao fundo, à direita, fora de foco, um rosto conhecido: "É o José Dirceu", disse para mim mesmo. Procurei a referência, na legenda e no texto, mas não encontrei. "Deve ser alguém muito parecido. Talvez o modelo que ele usou quando fez as cirurgias plásticas que antecederam sua volta ao Brasil", pensei. E esqueci o assunto.
     Hoje pela manhã, folheando O Globo, esbarrei na mesma foto. E lá estava o tal cidadão, com um meio sorriso. "É ele, sim", tive a certeza. Dessa vez, o texto confirmou minhas suspeitas. O deputado cassado e acusado - pelo procurador-geral da República, não por mim, ou por vocês - de liderar a quadrilha do Mensalão estava na comitiva do ex-presidente, meio na sombra, como sugere a foto.
     Além dele, outro membro destacado do governo passado fazia parte do grupo, o ex-ministro Franklin Martins, velho companheiro de Dirceu e, como ele, um apaixonado pelas - digamos - características bem especiais do regime cubano.
     Procurei, no corpo da matéria, uma explicação para a visita à Ilha desses três portentos da política brasileira, mas que não fazem parte do Governo. Saudades do ditador aposentado, com quem também estiveram? Não poderia ser só isso.
     Sem uma justificativa aparente, Lula visitara as obras de uma tal Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, que fica a 43 quilômetros de Havana. Segundo O Globo, é um complexo que contará com porto, terminal de cargas, novo acesso rodoviário e ligação ferroviária com Havana. Tudo financiado pelo BNDES e construído pela empreiteira brasileira Odebrecht, uma das grandes vencedoras da batalha pelas melhores fatias das obras do 'PAC', lançado no Governo Lula. Algo em torno de R$ 100 bilhões.
     De Cuba, O ex-presidente (???) seguiu para a (adivinhem?) ... Venezuela. Saldo da viagem, que terminará amanhã, sábado: palestra paga pelo grupo empresarial mexicano Salinas; visita a obras realizadas pela Odebrecht; encontro com Hugo Chavez. A presidente Dilma Roussef? Bem, ela está esperando o ministro Antonio Palocci pedir demissão.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Palocci já está quase no ponto

     O ministro Antonio Palocci, da Casa Civil, está quase no ponto de ser servido à população e perder seu segundo cargo do primeiro escalão por algo que poderíamos classificar de 'conduta não-republicana'. A dedução é minha, mas as indicações estão nas entrelinhas das últimas 'declarações' do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o encarregado de dar os recados de interesse do Governo.
     Segundo notícias divulgadas nos principais sites, entre eles o da Veja, o acusado de ser o ex-carregador de propinas pagas ao PT por empresas de ônibus (de acordo com a Justiça de São Paulo) admitiu que Palocci não está em boa situação, mas que continua firme. Se fosse um técnico de futebol, poderíamos concluir que ele está 'prestigiado', um sinônimo para quase desempregado.
     Além disso, Palocci - que não vai receber o apoio incondicional do PT, como era pleiteado - já teria recebido 'orientações' da presidente Dilma para falar, dar explicações sobre seu enriquecimento. O Governo, a essa altura do escândalo, quer deixar claro que não tem nada a ver com o fabuloso sucesso empresarial do seu principal ministro.
     Considerando as palavras do ministro Gilberto Carvalho, Palocci vai dar explicações "muito em breve". Mas ainda não há data marcada: "Eu não posso dizer que é hoje porque não deve ser hoje, mas será muito brevemente. Ele está escolhendo a forma", disse o secretário da Presidência aos jornalistas que foram cobrir o lançamento do mais novo factóide governamental: o programa "Brasil sem pobreza".
    Fico imaginando o que quer dizer a expressão "escolhendo a forma", empregada por Gilberto Carvalho. Só há uma forma possível, ministro: dizer a verdade.