Pode ser até que seja uma espécie de rigor exacerbado, mas está cada vez mais difícil engolir determinadas avaliações sobre os desdobramentos das muitas crises que se espalham pelo mundo, a líbia em especial. Ontem, por exemplo, ouvi - ninguém me contou - a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmar que os Estados Unidos não vão intervir na Líbia, a não ser em conjunto com a comunidade internacional, que já está fazendo pressões, sim. Disse mais: que até mesmo a efetivação de uma zona de exclusão aérea - defendida ardorosamente por vários países - deve ser aprovada pelas nações.
Pois bem. Sai a secretária e entra um dos correspondentes da Globo News nos Estados Unidos dizendo que uma invasão da Líbia não seria admitida pelos americanos em geral e que qualquer ação só seria aceitável em caso de comprovação da existência de armas químicas etc etc. Ou o rapaz não ouviu o discurso da secretária, ou já estava com o comentário feito e não teve tempo de mudar - ou não quis. Em qualquer das hipóteses, a versão não correspondeu aos fatos.
sexta-feira, 11 de março de 2011
A verdade, pura e simples
Há um tema que vem me desafiando há alguns dias: a iminente criação da Comissão Nacional da Verdade, destinada, segundo seus proponentes, a resgatar parte da história que foi sepultada com a Lei da Anistia, promulgada em 1979 e convalidada recentemente pelo STF, por sete votos a dois. Por ela, crimes e criminosos foram perdoados, independentemente da motivação política.
A ministra Carmem Lúcia, quando do julgamento no STF de ação proposta pela OAB, questionando a anistia a agentes do Estado responsáveis por torturas e mlortes, foi absolutamente didática ao afirmar que é necessário considerar o contexto do período em que a Lei foi negociada: "Não vejo como julgar o passado com os olhos apenas de hoje", disse, na época.
Talvez esteja nessa frase na ministra a síntese de tudo: a impossibilidade da isenção. No caso brasileiro, em especial, a transição de regime militar para a democracia foi amplamente negociada em todos os níveis da sociedade. Havia uma irresistível vontade de reunificar o país, de cicatrizar enormes feridas. O remédio evidentemente foi amargo, mas renovou as forças da nação, que soube avançar e construir as bases para um futuro de liberdade.
É óbvio e plenamente compreensível que um respeitável contingente de brasileiros ainda relute em aceitar o perdão indiscriminado. São pais, mães, esposos, filhos, irmãos, amigos dos ainda hoje desaparecidos e dos comprovadamente mortos quando prisioneiros. Talvez seja mesmo impossível perdoar agentes supostamente da Ordem que exorbitaram, transformando-se em meros e sádicos criminosos. Talvez seja mesmo impossível viver sem saber onde seus parentes foram mortos e enterrados, sem a evidência física da violência.
Mas não se pode esquecer que há, também, um grupo tão importante de pais, mães, filhos etc de vítimas inocentes da luta política, sacrificadas pelos que se opunham e lutavam contra o os governos de então. A essas pessoas também seria dado o direito à - vamos chamar assim - verdade?
A verdade, e eu acredito nela, deve ser uma busca constante do homem, das sociedades. E por isso deve ser bem-vinda, sempre. Desde que não seja atrelada a uma visão distorcida e amargurada de quem, passados tantos anos, ainda rumina desejos de vingança.
A ministra Carmem Lúcia, quando do julgamento no STF de ação proposta pela OAB, questionando a anistia a agentes do Estado responsáveis por torturas e mlortes, foi absolutamente didática ao afirmar que é necessário considerar o contexto do período em que a Lei foi negociada: "Não vejo como julgar o passado com os olhos apenas de hoje", disse, na época.
Talvez esteja nessa frase na ministra a síntese de tudo: a impossibilidade da isenção. No caso brasileiro, em especial, a transição de regime militar para a democracia foi amplamente negociada em todos os níveis da sociedade. Havia uma irresistível vontade de reunificar o país, de cicatrizar enormes feridas. O remédio evidentemente foi amargo, mas renovou as forças da nação, que soube avançar e construir as bases para um futuro de liberdade.
É óbvio e plenamente compreensível que um respeitável contingente de brasileiros ainda relute em aceitar o perdão indiscriminado. São pais, mães, esposos, filhos, irmãos, amigos dos ainda hoje desaparecidos e dos comprovadamente mortos quando prisioneiros. Talvez seja mesmo impossível perdoar agentes supostamente da Ordem que exorbitaram, transformando-se em meros e sádicos criminosos. Talvez seja mesmo impossível viver sem saber onde seus parentes foram mortos e enterrados, sem a evidência física da violência.
Mas não se pode esquecer que há, também, um grupo tão importante de pais, mães, filhos etc de vítimas inocentes da luta política, sacrificadas pelos que se opunham e lutavam contra o os governos de então. A essas pessoas também seria dado o direito à - vamos chamar assim - verdade?
A verdade, e eu acredito nela, deve ser uma busca constante do homem, das sociedades. E por isso deve ser bem-vinda, sempre. Desde que não seja atrelada a uma visão distorcida e amargurada de quem, passados tantos anos, ainda rumina desejos de vingança.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Um legado de vergonhas
O Brasil um dia vai sentir vergonha do legado da política externa do Governo Lula, marcada mais pela mentira e manipulação do que pelos reais benefícios ao país. No plano internacional, durante oito anos, nossa nação esteve ao lado do que há de pior no mundo, dos mais violentos ditadores, dos supressores da liberdade, dos açoitadores de mulheres e de minorias, de gatunos contumazes. O apoio aos governos terroristas do Irã e da Líbia, a alguns genocidas africanos e a bufões como Hugo Chavez certamente será tema de debates sobre os males provocados pela irresponsabilidade de governantes mal-preparados e pessimamente assessorados.
Apesar do volume estratosférico de leviandades internacionais, ainda vai sobrar espaço para a discussão sobre a enorme capacidade de valorizar desqualificados e colocá-los nos mais altos cargos da República, muitos, no gabinete ao lado da sala da presidência. De José Dirceu a Delúbio Soares. De Erenice Guerra a Franklin Martins, flagrado, agora - segundo reportagem de O Estado de São Paulo - num complicado caso de favorecimento a um filho, enquanto era ministro.
E mais. Do eternamente equivocado Marco Aurélio Garcia ao atual secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, citado nas investigações que apuram a morte do ex-prefeito de Santo André (SP) Celso Daniel e que, nesse momento, ainda deve estar gozando do 'curso de reciclagem'' que foi fazer em ... Cuba, aproveitando os folguedos carnavalescos (sua volta está prevista para depois de amanhã).
Apesar do volume estratosférico de leviandades internacionais, ainda vai sobrar espaço para a discussão sobre a enorme capacidade de valorizar desqualificados e colocá-los nos mais altos cargos da República, muitos, no gabinete ao lado da sala da presidência. De José Dirceu a Delúbio Soares. De Erenice Guerra a Franklin Martins, flagrado, agora - segundo reportagem de O Estado de São Paulo - num complicado caso de favorecimento a um filho, enquanto era ministro.
E mais. Do eternamente equivocado Marco Aurélio Garcia ao atual secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, citado nas investigações que apuram a morte do ex-prefeito de Santo André (SP) Celso Daniel e que, nesse momento, ainda deve estar gozando do 'curso de reciclagem'' que foi fazer em ... Cuba, aproveitando os folguedos carnavalescos (sua volta está prevista para depois de amanhã).
quarta-feira, 9 de março de 2011
Histórias de Júlia e Pedro (5)
A beleza e o amor
O amor das crianças é quase sempre incondicional. E tem lá suas formas de expressão, próprias de cada um. Pedro, aos três anos e meio, é muito carinhoso, embora genioso e eventualmente ... levado. Na maior parte do tempo, no entanto, está disposto a um abraço, um beijo, um carinho, uma molecagem. E, para minha felicidade, é muito ligado em mim.
Há alguns dias, estávamos sentados 'conversando' sobre o comportamento de Cléo, sua labradora e amiga, quando ele - de repente - olhou para mim e disse, de modo bem direto:
- Vovô, você é muito bonito.
Agradeci -"obrigado, meu amor " - e retruquei que ele, sim, era um moleque muito lindo (o que é verdade). Pedro esperou eu acabar de falar e com um jeito que é só dele, acompanhado por uma gesticulação bem característica, explicou o motivo do tal elogio:
- Vovô, eu 'tô' dizendo é que gosto muito de você.
O amor das crianças é quase sempre incondicional. E tem lá suas formas de expressão, próprias de cada um. Pedro, aos três anos e meio, é muito carinhoso, embora genioso e eventualmente ... levado. Na maior parte do tempo, no entanto, está disposto a um abraço, um beijo, um carinho, uma molecagem. E, para minha felicidade, é muito ligado em mim.
Há alguns dias, estávamos sentados 'conversando' sobre o comportamento de Cléo, sua labradora e amiga, quando ele - de repente - olhou para mim e disse, de modo bem direto:
- Vovô, você é muito bonito.
Agradeci -"obrigado, meu amor " - e retruquei que ele, sim, era um moleque muito lindo (o que é verdade). Pedro esperou eu acabar de falar e com um jeito que é só dele, acompanhado por uma gesticulação bem característica, explicou o motivo do tal elogio:
- Vovô, eu 'tô' dizendo é que gosto muito de você.
Caminhos da morte
Entre as várias causas do número desanimador de mortes em estradas, especialmente em feriadões, como o do carnaval, destaca-se, para mim, o descompasso abismal entre o crescimento da indústria automobilística e os investimentos na malha rodoviária. Em trechos onde há 15 anos passavam - digamos - cem veículos por hora, hoje passam 500. A largura das faixas de rolamento é a mesma, as opções de escape também. Para agravar, o padrão dos motoristas em geral - e dos profissionais em especial - caiu vertiginosamente.
O produto final dessa multiplicação de fatores não poderia ser outro. A cada ano, momentos que deveriam ser de prazer transformam-se em pesadelos para centenas de famílias. O acesso de motoristas cada vez mais jovens aos automóveis também é determinante. Sem o tempo necessário ao aprendizado, lançam-se nas estradas como se estivessem trafegando nas ruas de seu bairro, cometendo os mesmos erros, com a mesma arrogância típica da idade, mas com resultados geometricamente mais graves.
As bebidas alcoólicas, a despeito das campanhas, surgem como outro fator deflagador de tragédias. Desinibem, liberam e matam.
Uma inspetora da Polícia Federal, em entrevista à Globo News, hoje pela manhã, fez uma avaliação muito competente do problema, mas argumentou que seria impossível fiscalizar cada quilômetro de estrada. É verdade. Num país continental como o nosso, seriam necessários exércitos de policiais. Talvez fosse o caso, no entanto, de rever a prática da fiscalização.
No lugar das armadilhas policiais (radares escondidos no mato, entre elas), mais transparência, mais presença ostensiva ao longo das vias, mais ações educativas. E punições, é claro.
O produto final dessa multiplicação de fatores não poderia ser outro. A cada ano, momentos que deveriam ser de prazer transformam-se em pesadelos para centenas de famílias. O acesso de motoristas cada vez mais jovens aos automóveis também é determinante. Sem o tempo necessário ao aprendizado, lançam-se nas estradas como se estivessem trafegando nas ruas de seu bairro, cometendo os mesmos erros, com a mesma arrogância típica da idade, mas com resultados geometricamente mais graves.
As bebidas alcoólicas, a despeito das campanhas, surgem como outro fator deflagador de tragédias. Desinibem, liberam e matam.
Uma inspetora da Polícia Federal, em entrevista à Globo News, hoje pela manhã, fez uma avaliação muito competente do problema, mas argumentou que seria impossível fiscalizar cada quilômetro de estrada. É verdade. Num país continental como o nosso, seriam necessários exércitos de policiais. Talvez fosse o caso, no entanto, de rever a prática da fiscalização.
No lugar das armadilhas policiais (radares escondidos no mato, entre elas), mais transparência, mais presença ostensiva ao longo das vias, mais ações educativas. E punições, é claro.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Esquentando os tamborins
A única morte que parece interessar, hoje, aos meios de comunicação em geral, é a do enredo da Escola de Samba Unidos da Tijuca. As barbaridades que continuam sendo produzidas pelo governo do misto de ditador e terrorista Muammar Kadafi contra o povo líbio foram relegadas a segundo plano, atropeladas pela evolução das passistas.
A posição mais uma vez equivocada da Rússia, que anunciou não admitir interferência no drama da Líbia, também foi minimizada. Se a opinião e a reação do Brasil fossem decisivas no enfrentamento do caos que se instalou entre os líbios, ele - o caos - poderia ficar tranquilo por pelo menos mais dois dias.
Nada que aconteça no mundo será mais importante do que os desfiles que ainda virão por aí. A não ser a divulgação dos campeões do carnaval, quarta-feira. Até lá, o Brasil vai continuar esquentando os tamborins.
A posição mais uma vez equivocada da Rússia, que anunciou não admitir interferência no drama da Líbia, também foi minimizada. Se a opinião e a reação do Brasil fossem decisivas no enfrentamento do caos que se instalou entre os líbios, ele - o caos - poderia ficar tranquilo por pelo menos mais dois dias.
Nada que aconteça no mundo será mais importante do que os desfiles que ainda virão por aí. A não ser a divulgação dos campeões do carnaval, quarta-feira. Até lá, o Brasil vai continuar esquentando os tamborins.
Histórias de Júlia e Pedro (4)
A hora e a vez da babá
Júlia estava com seus três anos e surpreendia a todos, quase diariamente, com demonstrações de sagacidade, tiradas engraçadíssimas e comentários que podemos chamar de bem maduros, para sua idade.
Ainda não tinha a companhia do irmão, Pedro, que só nasceria um ano depois. Assim, não precisava dividir. Todos eram dela, incluindo Sônia, a babá que continua zelando por ela e, mais de perto, pelo irmão, ainda carente de cuidados especiais, em função da idade.
Por essa época, Júlia estava afastada da creche, para contornar uma série de eventos alérgicos que a acompanhavam desde bebê. Cabia a Sônia, entre muitas outras coisas, brincar com ela, enquanto a mãe se dividia entre as muitas reportagens que fazia para algumas revistas.
Num determinado dia, Sônia precisou deixar Júlia brincando sozinha, com suas diversas bonecas, entre elas 'Chiquinha', a favorita, para preparar seu almoço. Mas Júlia queria atenção:
- Sônia, vem brincar comigo", convocou.
- Já vou Júlia, espera um pouco.
- Sônia, vem brincar agora", insistiu.
- Já vou, Júlia. Vai brincando com a Chiquinha", retrucou Sônia, para ouvir, em seguida, uma resposta que até hoje nos faz sorrir:
- Sônia, a Chiquinha não é a minha babá.
Júlia estava com seus três anos e surpreendia a todos, quase diariamente, com demonstrações de sagacidade, tiradas engraçadíssimas e comentários que podemos chamar de bem maduros, para sua idade.
Ainda não tinha a companhia do irmão, Pedro, que só nasceria um ano depois. Assim, não precisava dividir. Todos eram dela, incluindo Sônia, a babá que continua zelando por ela e, mais de perto, pelo irmão, ainda carente de cuidados especiais, em função da idade.
Por essa época, Júlia estava afastada da creche, para contornar uma série de eventos alérgicos que a acompanhavam desde bebê. Cabia a Sônia, entre muitas outras coisas, brincar com ela, enquanto a mãe se dividia entre as muitas reportagens que fazia para algumas revistas.
Num determinado dia, Sônia precisou deixar Júlia brincando sozinha, com suas diversas bonecas, entre elas 'Chiquinha', a favorita, para preparar seu almoço. Mas Júlia queria atenção:
- Sônia, vem brincar comigo", convocou.
- Já vou Júlia, espera um pouco.
- Sônia, vem brincar agora", insistiu.
- Já vou, Júlia. Vai brincando com a Chiquinha", retrucou Sônia, para ouvir, em seguida, uma resposta que até hoje nos faz sorrir:
- Sônia, a Chiquinha não é a minha babá.
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