terça-feira, 3 de abril de 2012

Um rio de lama cachoeira abaixo

      O ainda senador Demóstenes Torres evitou a expulsão e pediu desfiliação do DEM. Agora sem partido (a vergonha ele perdeu há muito tempo), vamos ver por quanto tempo vai resistir à torrente de acusações que desabou sobre ele, em virtude de seu envolvimento criminoso com o contraventor Carlinhos Cachoeira, uma espécie de donatário de Goiás.
     O processo de cassação por falta de decoro poderia ser o caminho mais óbvio, mas depende de uma série de variáveis e componentes teoricamente legais. A principal: se o grampo que revelou a pilantragem tem validade legal. Uma firula jurídica que não se sustenta moralmente. Demóstenes, se tivesse alguma dignidade - mostrou que não tem - deveria ter renunciado imediatamente e enfrentado a Justiça, que ele dizia defender e solapou.
     Talvez esteja esperando um milagre semelhante ao que salvou o mandato da deputada Jaqueline Roriz, do Distrito Federal, absolvida por seus pares em uma das votações mais calhordas já ocorridas na Câmara. Ele certamente sabe, como nós vamos ficando sabendo, aos poucos, que há mais podridão na vala de corrupção alimentada por Cachoeira. E conta com isso.
     Hoje, por exemplo, a Folha revela que o contraventor pagou propina, também, a servidores do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para registrar uma fazenda comprada a preço de banana, nos arredores de Gama, e revendê-la a custo chácara no Lago. O Incra, não podemos esquecer, faz parte do latifúndio do Ministério do desenvolvimento Agrário, comandado pelo PT.
    Aliás - coincidentemente -, o ministério passou por mudança recentemente. Saiu um deputado do PT (Afonso Florense) para a entrada de outro, Pepe Vargas, também gaúcho. A 'propinagem' (mistura de propina com pilantragem) só foi revelada agora, mas ocorreu ano passado, sob a batuta do superintendente do órgão no DF, Marco Aurélio Bezerra da Rocha, e, por tabela, do ex-ministro Florense.
    Caros, muito esgoto ainda vai rolar cachoeira abaixo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Todos no camburão

     "A comprovação de dois saques bancários reforça a denúncia de que o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, recebeu um pagamento de 256 mil reais de propina em agosto de 2007. Os recursos seriam oriundos de desvios no Ministério do Esporte, que foi comandado pelo petista entre 2003 e 2006".    
     O texto acima está na Veja. A ilustrá-lo, reprodução de parte do inquérito aberto plo Ministério Público contra o governador. Ainda não vi (ou li) qualquer manifestação da OAB, ou órgãos 'assemelhados', pedindo o impeachment ou a demissão imediata do ínclito representante petista.
     Também estou aguardando com ansiedade a condenação do ainda ministro Fernando Pimentel, da pasta do Desenvolvimento e outras coisas, um especialista em palestras jamais pronunciadas, mas bem pagas. E o ministro da Fazenda, Guido Mantega, atolado até o pescoço (no mínimo por omissão) nos malfeitos (roubalheira, mesmo) registrados na Casa da Moeda? E a ministra Ideli Salvatti, a que nega o que não pode ser negado?
     Enfim. São tantos nomes a merecer a atenção das nossas entidades guardiãs da democracia que elas - quem sabe? - talvez não tenham tido tempo de se pronunciar.
     É hora de colocarmos no mesmo saco todos os contraventores, sejam eles do DEM, do PSDB ou do PT e aliados, a grande maioria.

Ao som do tango

     "Todos merecem ter o nome em uma lápide, todas as mãe tem o direito inalienável de enterrar seus mortos, colocar uma placa e chorar em frente dela".
     A frase, transcrita pela Folha, é da presidente argentina Cristina Kirchner, a uma plateia formada por membros do governo e veteranos da guerra pela tomada das ilhas Falklands (que argentinos - entende-se - e brasileiros - incompreensivelmente - insistem em chamar de Malvinas), hoje, na cidade de Ushuaia, extremo sul do continente.
     A presidente esqueceu de dizer que os culpados pelas mortes foram os responsáveis pela ditadura que ensanguentou o país nos anos 1970 e começo de 1980. Foram os generais - Cristina convenientemente esquece de citá-los, quando é do seu interesse demagógico - que jogaram a Argentina numa aventura mal-sucedida, na qual foi vergonhosamente derrotada pela Inglaterra, e que ajudou a soterrar o regime, deposto no ano seguinte, em 1983.
     Uma aventura semelhante à que a atual presidente está fingindo trilhar, inconsequentemente, em busca de um inimigo comum para reagrupar a população, que já começa a dar sinais de que a paciência está se esgotando, face aos caos administrativo e econômico da nação.
     A presidente argentina sabe que não tem a menor chance de tomar as ilhas - tomar, sim, pois elas jamais foram argentinas, de fato. Apenas explora da maneira mais vulgar o que há de pior no sentimento 'nacionalista'. Hitler fez isso - elegeu um inimigo comum, no caso, os judeus - na Alemanha nazista. Acabou dando um tiro na cabeça.
     A cena - patética, divulgada em todos os jornais - do lançamento de flores ao mar é de uma canastrice digna do roteiro que foi traçado. Ao fundo, militares em continência.
     Pobre América Latina.

Se quiser ser político, não minta

     O personagem não é lá grandes coisas, pelo que sabemos de suas ideias e atos. Mas, tenho que reconhecer, deu um exemplo que poderia ser copiado aqui nas nossas bandas. Segundo Veja, que reproduz agência internacional, o presidente da Hungria, Pál Schimitt, renunciou hoje ao cargo por ter sido flagrado em uma espécie de estelionato cultural: ficou comprovado que plagiou a tese que lhe deu o título de doutor.
     O fato se transformou num escândalo no país - um presidente que faz plágio!!! - e provocou a renúncia, sob o argumento de ter causado a divisão da opinião pública. Imaginemos situação semelhante aqui no Brasil. Talvez não houvesse governo, se considerarmos a quebra de decoro e a mentira como crimes semelhantes ao plágio. Já nem falo em roubalheira, pura e simples, que deveria ser caso de polícia, de cadeia. Mas de uma simplória supressão da verdade.
     Por exemplo: todo político que dissesse a frase "Eu não sabia", quando todos nós sabemos que ele sabia de tudo e mais um pouco, deveria ser imediatamente cassado. Indo além: todo dirigente, de qualquer nível, que 'pedisse demissão do cargo' para "se defender melhor das acusações infundadas disseminadas pela imprensa e seus inimigos" seria condenado imediatamente à prisão, sem direito a recurso.
     E seguiríamos nesse caminho, fiscalizando e punindo rigorosamente todo e qualquer desvio de conduta; todas as declarações deploráveis (como comparar a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, durante a Copa, com a liberdade que damos aos pilotos de Fórmula Um para ultrapassar limites de velocidade); as desculpas esfarrapadas para defender ditaduras assassinas pelo mundo etc etc.
     Exemplos não faltam, em todos os continentes.

Continuamos 'bananeiros'

     Em um extremo, o governo da argentina Cristina Kirchner, ameaçando estatizar empresa de petróleo que foi privatizada, perseguindo jornais e jornalistas, maquiando números da economia e revivendo o conflito com a Inglaterra, pela posse das ilhas Falklands. Do outro, não necessariamente do ponto de vista geográfico, o eterno bufão venezuelano Hugo Chávez acena com a estatização de todas as empresas que, a seu critério (se é que esse personagem de anedotas sem a menor graça tem algum), estiverem apoiando seu adversário nas próximas eleições presidenciais.
     No meio, o Brasil varonil, apoiando - expressamente ou por conveniente omissão - esses dois exemplos bem acabados de vigarice ideológica, alinhando-se com eles, nivelando-se por baixo, num evidente retrocesso da nossa política externa, que chegou a dar alguns sinais de amadurecimento, depois de oito anos da mais absoluta mediocridade.
     No caso argentino, pode-se, até, argumentar com a necessidade que nosso país tem de manter boas relações. Afinal, nosso vizinho é um dos bons parceiros econômicos. Se fosse possível comparar, o Brasil está para a Argentina, assim como a China está para o Brasil, guardadas as necessárias e devidas proporções, como foi destacado , também, pelos participantes dos debates do último Painel, programa da Globo News comandado pelo jornalista William Waack.
     Mesmo sabendo desse diferencial, custo a engolir nosso alinhamento na questão das Falklands, que os argentinos e brasileiros insistem em chamar de Malvinas, num evidente desrespeito à soberania do lugar e de seus habitantes. Não há razão histórica alguma que justifique a pretensão argentina - as ilhas, que pertenciam à Espanha (lembram de um 'tal' de Tratado de Tordesilhas?), foram ocupadas pela Inglaterra há quase 200 anos, quando espanhóis e franceses (que haviam comprado parte do território) abriram mão de tudo. A Argentina, recém-independente, nunca por lá esteve, de fato.
     Se formos levar em conta a vontade dos seus habitantes - princípio basilar reconhecido pela ONU -, então, veríamos que não há a menor sustentação para esse 'revival' da aventura argentina. Seus habitantes - a contragosto da maioria dos repórteres 'canarinhos' que por lá estiveram nesses dias, em função dos 30 anos da guerra provocada pelos ditadores argentinos da época - são unânimes em defender a autonomia, sob as bênçãos da Grã-Bretanha.
     Mais bem faria o Brasil se abandonasse essa postura de subserviência a uma compulsão 'anti-imperialista' soterrada pelos fatos e pelo tempo e exercesse sua liderança natural no continente para clarear mentes e oxigenar o perfil político dos dirigentes vizinhos.

domingo, 1 de abril de 2012

A OAB e o 'cachorro morto'

     O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante, nos conta a Folha, defendeu a renúncia imediata do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), flagrado em conversas indecorosas com seu amigo e financista, o contraventor Carlinhos Cachoeira. Afinal, me vejo obrigado a endossar parcialmente uma proposta da Ordem. O ainda senador deveria não apenas renunciar, mas sofrer a infâmia da cassação e do posterior julgamento de seus atos.
     Lamento, apenas, que a OAB não demonstre tanto vigor quando os envolvidos em roubalheiras fazem parte do governo ou da tal base - o saco de gatos ideológico que mistura o que há de pior na política brasileira. Gostaria, muito, de ouvir ou ler pedido semelhante em relação ao ainda ministro do Desenvolvimento e outras coisas, Fernando Pimentel (PT-MG), o ex-prefeito de Belo Horizonte que recebeu R$ 2 milhões da Federação das Indústrias de Minas Gerais para ficar calado (oficialmente, foi 'contratado' para palestras jamais proferidas).
     Também sinto falta da indignação do preclaro advogado em relação ao escândalo que envolve o ainda governador do Distrito Federal, o também petista Agnelo Queiroz. Ou algum brado contra o deprimente 'acerto de contas' (no valor de R$ 150 mil) entre a candidatura da atual ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais ???) à governança de Santa Catarina e uma empresa contratada pelo governo para produzir, para o ridículo Ministério da Pesca, lanchas que nunca saíram das pranchetas e/ou 'vagas secas'.
     Também estou aguardando uma manifestação mais vibrante em favor do julgamento imediato do Mensalão do Governo Lula, o maior escândalo da história recente do país.
     Eu sei que advogados - por definição - defendem e atacam de acordo com seus contratantes. Isso faz parte da liturgia judicial, da democracia. Mas entidades que, teoricamente, representam uma comunidade devem ser independentes o bastante para atuar com dignidade em qualquer situação, sem escolher o judas a ser malhado ou chutar cachorro morto.

Embustes e fantasias

     Acredito que poucas pessoas razoavelmente informadas levem a sério o tal do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), nada mais do que uma sigla inventada no departamento de marketing do Governo, o único que realmente tem um desempenho espetaculoso nesses últimos anos da Era Lula. Algum dos gênios contratados pelo Planalto teve a ideia de fingir que a principal obrigação de um governo - governar! - não existia e jogou no mesmo saco tudo o que deveria fazer e não fazia a contento.
     Como se estivesse no comando de um dos bingos do contraventor Carlinhos Cachoeira, o governante do momento enfia a mão na sacola e anuncia um número (um projeto qualquer, engavetado por falta de respeito a população). Vem sendo assim. Asfaltar rodovias, por exemplo, passou a ser uma obra do PAC, quando nada mais é do que o be-a-bá da administração, uma obrigação governamental. Descobriu-se, no entanto, que obras desse calibre aceleram, na verdade, a corrupção.
     E isso acontece em todos os setores da administração pública, com o objetivo de alimentar a fantasia criada em torno da presidente Dilma Rousseff, a "mãe do PAC', de que ela seria uma administradora sem igual. Infelizmente para o Governo - felizmente para as pessoas capazes de racionar além das bobagens vendidas em manchetes insossas e inodoras -, vemos que todos os projetos estão atrasados ou sequer foram tocados, por falta de investimento, pura incapacidade gerencial e corrupção.
     A transposição das águas do Rio São Francisco, que o ex-presidente Lula pretendia inaugurar, em 2010, sofreu um aumento brutal nos custos e foi adiada para - quem sabe? - 2016. O déficit habitacional aumenta, apesar dos constantes anúncios de planos mirabolantes. Em dois anos, o Governo anunciou a construção de dois milhões de residências. Mal completou cem mil, ao longo desse período. Mas a cada anúncio fantasioso, novas manchetes.
     Hoje, o jornal O Globo exibe a estatítica deprimente dos investimentos em saneamento: apenas 7% das obras previstas estavam razoavelmente concluídas no fim do ano passado. Mas serão justamente essas obras as que serão exibidas triunfalmente na campanha eleitoral dos vereadores e prefeitos dos partidos da 'base'.
     Essa realidade explica o fabuloso montante das verbas destinadas à publicidade oficial. Verbas que dão cores e vida a um pacote de mentiras e empulhações.