terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sem casa e sem vida

     Os números são alarmantes. Segundo O Globo, a Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro não explicou ao Tribunal de Contas onde estão R$ 60 milhões dos R$ 70 milhões enviados pelo Governo Federal, ano passado para obras na Região Serrana, vítima da catástrofe que matou mais de 900 pessoas. Estamos falando de algo em torno de 85% do dinheiro que deveria ter sido usado na desobstrução de rios e canais, contenção de encostas e outras iniciativas indispensáveis, e que foi gasto sem a devida comprovação.
     O retrato mais acabado desse 'mistério' pode ser visto especialmente em Nova Friburgo, município que voltou a ser atingido pelo descaso oficial. Enchentes, desabamentos, desabrigados e morte, resultado da - no mínimo - utilização indevida das verbas públicas.
     Paralelamente, a nova temporada de chuvas nos possibilitou saber que nada foi feito, também, em relação aos desabrigados, aos quais foram prometidas, com o estardalhaço marqueteiro de sempre, novas moradias. O Programa Minha Casa Minha Vida não construiu, sequer, um quitinete. OU não houve interesse, segundo nos informa o jornal, ou será necessário 'recalcular' os custos. Para cima, é claro.
     Para baixo, só as encostas, que continuam desabando e soterrando esperanças.

Se abrir, não fica um

     Veja noticia hoje que o governo da Coreia do Sul liberou, novamente, as visitas de seus cidadãos à vizinha e inimiga Coreia do Norte (tecnicamente, a guerra entre os dois países continua). As viagens tinham sido suspensas quando da morte do ditador anterior, Kim Jong-il, na expectativa de que a situação ficasse mais clara, como ficou, com a posse do filhote, Kim Jong-un, aclamado - isso existe!!! - líder supremo, farol dos novos tempos.
     A atitude sul-coreana não chega a surpreender. Afinal, é um país onde prevalecem os direitos básicos, inclusive o de ir e vir, inexistente no irmão do norte. Surpresa haveria se ocorresse o inverso: norte-coreanos liberados para cruzar a fronteira, livremente. Ouso dizer que poucos - muito poucos - voltariam à miséria, fome, ignorância e intolerância de um dos regimes mais anacrônicos do mundo.
     Proibir o livre trânsito de seus cidadãos, aliás, é uma das características das ditaduras, dos regimes de opressão. Quando obrigados, por força das circunstâncias (eventos esportivos, como Copa do Mundo e Olimpíada), os governos do estilo norte-coreano e cubano, por exemplo, não se acanham em chantagear seus atletas, ameaçando prender parentes e amigos.
     Não é difícil entender a razão dessa pressão sobre suas populações. Excetuando beneficiados pela corrupção e vantagens oferecidas por esses governos arbitrários, a maioria absoluta da população penderia para optar pela liberdade, ao conhecê-la, ao ter a oportunidade de desfrutá-la. Isso explica, também, o pavor que esse tipo de governo tem da informação, manipulada ostensivamente.
     Se conhecessem a realidade dos países livres, cubanos e norte-coreanos, entre outros, não teriam dúvida em cruzar as cercas de arame farpado, para sempre. Ou desencadear um processo inexorável de luta pelos direitos humanos.

Duelo legal

     Em toda essa medíocre disputa envolvendo os mais diversos escalões das cortes de Justiça, fica patente, pelo menos para mim, que a corregedora Eliane Calmon, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), perdeu uma grande oportunidade de dar um basta à impunidade e enterrar o lamentável espírito de corpo que prevalece entre nossos magistrados em geral.
     Bastava que ela se ativesse, como juíza que é, à Constituição, seguindo os preceitos, sem abrir mão da busca pela democratização da lei, pela punição exemplar aos que usam poderes conferidos pela Nação para benefício próprio.
     Ao optar por uma tática mais ofensiva, de grande apelo midiático, é verdade, mas desprovida de amparo legal, deu chances a que fosse contestada com um argumento irreparável: a Constituição. E nesse livrinho, lembrado eventualmente, quando interessa aos oponentes, estão previstos todos os procedimentos de um processo normal de investigação de magistrados.
     Por mais que imaginemos que há, sim, nas corregedorias estaduais, uma certa complacência com malfeitos de suas excelências, esse fato não pode ser usado para atropelar procedimentos consagrados. Antes, deveria haver uma mobilização para alterar os ritos, dando mais poderes ao CNJ, menos envolvido com interesses particulares e, portanto, livre para julgar com mais isenção e rapidez.
     A reação do Supremo Tribunal Federal, por definição, o guardião da Constituição, mostrou que a corregedora atirou no próprio pé, ao avocar para si poderes acima de sua alçada. Sem falar na enorme escorregada retórica que deu, ao atirar,a esmo, na honra de todos os juízes, sem distinção.
     Esse equívoco tático dá margem a declarações como as publicadas hoje, no Estadão. Segundo o novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Sartori, ele é vítima de um "patrulhamento ideológico", justamente porque cobra que o CNJ respeite as garantias constituicionais.
     E foi mais além: "O temor é que não se respeite o devido processo legal. "Tivemos tempos passados em que isso não houve. Esse tempo é o do regime militar, onde não se respeitava o devido processo legal", destacou, com argumentos juridicamente irrespondíveis.
    

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A tragédia anunciada

     Um ano inteiro praticamente sem providências. Já não falo em melhorias, obras reais. Apenas em ajeitar o que foi destruído na catástrofe que atingiu a Região Serrana, ano passado, nessa mesma época. Nesse período - confessam os entrevistados pelo O Globo, hoje -, apenas medidas paliativas. O trabalho duro, de desobstrução de rios e córregos e contenção de encostas, ficou nas promessas de administradores irresponsáveis, alguns, e criminosos e irresponsáveis, outros.
     O temporal que cai sobre o Estado há quase 48 horas estava mais do que previsto, em virtude de fenômenos climáticos (zonas de convergência e outros), explicados e anunciados diariamente pelas moças e rapazes do tempo, em todas as emissoras, várias vezes por dia. Não há surpresas, há descaso. E roubo, sim, muito roubo. As verbas prometidas chegaram em doses homeopáticas e foram - segundo denúncias formais - desviadas ou gastas indevidamente.
     Municípios, como Nova Friburgo, estão vivendo as vésperas de outra tragédia. Os rios e córregos não dão vazão à enxurrada, que cresce pelas margens e afoga casas e moradores. Queda de barreiras, desabamentos de casas que já não deveriam estar onde estavam. Enfim: um retrato de incompetência administrativa.
     À população, resta torcer e rezar para que as chuvas diminuam e que não sejam obrigadas a ouvir as sirenes de mau agouro, praticamente a única 'realização' das autoridades municipais e estadual. E sentir vergonha de viver num país onde são desviados bilhões de reais por ano, como o próprio O Globo denunciou.

Um paraíso ameaçado





As Torres de Paines, um dos lugares mais bonitos da Patagônia Chilena

     Há uma notícia recente, em especial, que mexeu comigo: a devastação do Parque Nacional de Torres de Paines, na Patagônia Chilena. Essa região - a Patagônia em geral - marcou muito um momento de transição profissional, logo após minha saída do Jornal do Brasil, em meados de 1999. Durante praticamente dois anos, me dediquei a um trabalho que é o sonho de muita gente: viajar por praticamente toda a América do Sul, de carro (na verdade, veículos utilitários, equipados com tração 4x4), transformando o resultado dessas aventuras em reportagens, no estilo de crônicas diárias.
     Tínhamos um grupo muito unido, formado por um excelente piloto e mecânico, Alexandre Viana, e por um ou dois motoristas ('seu' Edir era presença constante). Viajávamos sempre em três veículos, um para cada aventureiro. O quarto integrante se revezava, entre os veículos, quando alguém demonstrava sinais de cansaço.

As Torres e o lago formado pela água do degelo

Fronteira da Argentina com o Chile, a caminho da Cordilheira dos Andes

Guanacos, pastando livres, com a Cordilheira dos Andes ao fundo

Na linda Baía Creek

O acesso à Baía Creek é feito por uma passagem estreita, cortada na pedra

O vulcão Lanin, adormecido, mas ainda ativo

      Entre nossas diversas incursões (*), não há como deixar de destacar a viagem que fizemos do Rio de Janeiro a Ushuaia, para onde eram mandados os criminosos (em fevereiro e março de 2000), na província argentina da Tierra del Fuego, no 'Fim do Mundo', no extremo sul do continente, através da Patagônia, com direito a um roteiro que nos levou à Cordilheira dos Andes e outras atrações incríveis dessa região, como a Península Valdez, Las Grutas, Punta Tombo (maior pinguineira do mundo)Torres de Paines, Bosque Petrificado, a Gruta do Milodon (o maior herbívoro da região, extinto no Pleistoceno, algo entre 1,8 milhão e 11,5 mil anos), em Puerto Natales, no Chile, e o Parque dos Glaciares, onde está o fantástico Perito Moreno.
O descanso, ao sol, de leões marinhos

Em Punta Tombo, a maior pinguineira do mundo

A caminhada dos pinguins, dos ninhos para a água. da água para os ninhos

Na Península Valdez, ao lado de leões e elefantes marinhos


Em Las Grutas, as piscinas escavadas na pedra e que enchem na maré alta. O sol aquece a água, permitindo o banho, no verão

Uma visão do Glaciar Perito Morno

     Não consigo imaginar a área das Torres de Paines destruída pela irresponsabilidade de um visitante. Ver o céu tomado por grossas nuvens de fumaça, logo ali, num ponto considerado por cientistas como ideal para observar o universo.
As enormes distâncias da Patagônia

Na Terra do Fogo, exatamente no 'Fim do Mundo'
    
Tocado, fui buscar nos meus arquivos alguns momentos dessa viagem, que durou exatos 45 dias. Reproduzo algumas fotos, refotografadas, agora, para postagem. Embora a qualidade não seja a ideal, a beleza dos lugares compensa essa deficiência, tenho certeza.
No Glaciar Perito Moreno, com sua imensidão de gelo azul

Uma lembrança da Guerra das Malvinas: o alerta para minas enterradas à beira-mar

No meio do nada, uma parada para trocar pneus furados pelo 'ripio', espécie de cascalho usado nas estradas
(*) Nesa época (entre julho de 1999 e julho de 2001), tivemos a oportunidade de explorar as três principais chapadas brasileiras (Veadeiros, Diamantima e Guimarães), O Pantanal e sua incrível Rodovia Transpantaneira, e a Amazônia (navegando dez dias pelos rios Madeira e Amazonas), além de praticamente inaugurarmos a rodovia que vai de Manaus a Caracas, na Venezuela, atravessando outro paraíso: a Grande Savana. Na volta de Caracas, cruzando a Belém-Brasília, descobri outro lugar especial no Brasil: O Jalapão, onde estive em seis ocasiões, sempre de carro, saindo do Rio.

Incertezas e ditaduras

     O noticiário internacional nos transporte, hoje, para o Egito, onde está recomeçando o julgamento do ex-ditador, Hosny Mubarak, deposto no início da 'Primavera árabe'. Até aí, tudo normal. O problema começa quando se adivinha que o processo pela repressão violenta contra os manifestantes que a ele se opunham, responsável por dezenas de mortes, tende a cair no vazio.
     Preocupa, sim, mas não surpreende. O Egito, na verdade, continua dominado pela mesma aristocracia militar que dava sustentação a Mubarak. O poder não deixou de estar subjugado, apenas saiu de cena o personagem que liderava o Governo. A população, depois das eleições legislativas realizadas quase no fim do ano passado, percebeu isso e voltou às ruas, principalmente à Praça Tahrir, a principal do Cairo, onde as manifestações se concentram.
     O resultado foi o que todos vimos: o governo de fato, exercido por uma junta militar, reprimiu as manifestações com um rigor que nada ficou devendo aos anos do ditador. Houve mortes, agressões e prisões, tudo como antes.
     E se nada mudou, realmente, como condenar alguém por algo que jamais deixou de ser feito? Mubarak é tão culpado quanto os que o sucederam. Só mesmo uma profunda mudança no processo político do país - com eleições realmente livres e a adoção de uma democracia efetiva - poderá transformar a realidade.
     No Egito, assim como na Síria, não há liberdade plena de manifestação, apesar da capa legalista que já não consegue ocultar as mazelas de gogernos e governantes alinhados com o atraso.
     E o Irã, muçulmano, também, mas não árabe? Para mim, está em outro patamar: o do estado terrorista, que esmaga seus cidadãos com a mais atrasada e estúpida interpretação do Corão e ameça o mundo com práticas medievais de 'política', como a recente bazófia de fechar o Estreito de Ormuz, entre os Golfos Pérsico e de Omã - rota do petróleo que abastece a maior parte do mundo - e realizar testes com mísseis de médio e longo alcance.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um brinde ao passado


     Nada melhor para começar um novo ano do que lembrar um passado que nos deixa orgulhosos de ter feito parte dele. Ontem, destaquei a qualidade da geração que debutava no jornalismo no fim dos anos 1960, justamente num momento de transição do país, que inaugurava um período de exceção que deixou marcas na sociedade. Marcas que ainda hoje estão bem vivas.
     Hoje, inspirado em um comentário de Carlos de Laet, um velho companheiro de O Globo, sobre o jornalista e acadêmico Merval Pereira Filho, me senti na obrigação de reverenciar um grupo de jovens e – por paradoxo que pareça – já experientes repórteres que o jornal do Dr. Roberto Marinho reuniu na equipe da Geral nos primeiros dos anos 1970, mais exatamente entre 1973 e 1976.
     Nossa Geral – eu já fazia parte dela, vindo de quase cinco anos no O Jornal –, em determinado momento, ostentava - ao mesmo tempo! - jornalistas realmente diferenciados, como José Marcelo de Lima Pontes, Nilton Lucas Capareli, Franklin Campos, Telmo Wambier, Altamir Tojal, o já citado Merval Pereira Filho e, sem falsa modéstia, eu mesmo. Competir com aquela ‘força da natureza’ era complicado, mesmo para a ótima equipe do Jornal do Brasil, nosso concorrente direto, que já ‘navegava’ no prédio da Avenida Brasil, onde passei, quase 18 anos, a partir de janeiro de 1982.
     Outras ótimas gerações surgiram, ao longo do tempo – e eu destaco várias, com as quais tive o prazer de trabalhar e aprender, no ensaio ‘Nariz de Cera’ (aí ao lado, no Blog, ao alcance de um clique). Nesse ensaio, conto histórias dos meus 40 anos passados basicamente em três redações. Mas essa equipe – a dos anos 70 de O Globo - foi, sem dúvida, a que mais me marcou, pela densidade profissional, quantidade e exuberância de talentos.