"Ouça-me bem, amor;
Presta atenção: o mundo é um moinho;
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos;
Vai reduzir as ilusões a pó"
Não encontro, na nossa música popular, versos tão brilhantes, emocionantes, profundos, amargurados. A cada vez que escuto Cartola, como agora, para escapar da agressão sonora que vem de algum vizinho distante, apaixonado por música (?) baiana, aumenta minha convicção de que Angenor de Oliveira foi alguém muito especial, uma daquelas pessoas que surgem a cada século e que deixam sua marca.
Vocês já pararam para pensar que um sujeito quase analfabeto, favelado, nascido no começo do século passado (30 de novembro de 1908) escreveu, também, que "as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti"? E que, não satisfeito, alertou a "uma triste senhora" que o seu pranto iria "molhar o deserto"; além de pedir, a uma "romântica senhora", que não o deixasse "sucumbir nesse vendaval de paixão".
Esperançoso, admite que, chorando, "viu a mocidade perdida". E ainda sofrendo, claramente, confessa à paixão do momento que teve, sim, "outro grande amor e que vivia tão contente, como contente ao lado dela estava". Mas se recusava a fazer comparações, para "não magoá-la".
Ouvir Cartola deveria fazer parte das obrigações de todos nós, como tomar vacina. Se o Brasil ouvisse mais Cartola - e menos Lula - certamente ficaria imunizado contra a mediocridade.
domingo, 3 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Corrupção endêmica
Eu já decidira desligar o computador. 'Chega por hoje', pensei. Mas, para evitar arrependimentos, dei uma geral nos principais jornais e revistas. E quase todos já estampavam manchete sobre a demissão de quatro - isso mesmo, quatro - integrantes da cúpula do Ministério dos Transportes, entre eles o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Luiz Antonio Pagot, e Mauro Barbosa Silva, chefe de gabinete do ainda ministro Alfredo Nascimento.
A notícia foi publicada na Veja e remete a um enorme esquema de corrupção. Segundo a revista,a turma do Ministério, que faz parte da cota do Partido da República (PR), cobrava propina de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Em troca, os fornecedores venciam as licitações, eram beneficiados com superfaturamento de preços e podiam fazer aditivos à vontade, o que elevava ainda mais o valor das obras.
A dinheirama, a princípio, era destinada à conta do tal PR e aos deputados do estado que ganhara a obra. O chefão do esquema, segundo a Veja, seria o deputado Valdemar da Costa Neto (SP), secretário-geral do partido, envolvido em diversas denúncias.
Não há uma semana sem que o governo Dilma esteja envolvido, direta ou indiretamente, em um escândalo.
A notícia foi publicada na Veja e remete a um enorme esquema de corrupção. Segundo a revista,a turma do Ministério, que faz parte da cota do Partido da República (PR), cobrava propina de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Em troca, os fornecedores venciam as licitações, eram beneficiados com superfaturamento de preços e podiam fazer aditivos à vontade, o que elevava ainda mais o valor das obras.
A dinheirama, a princípio, era destinada à conta do tal PR e aos deputados do estado que ganhara a obra. O chefão do esquema, segundo a Veja, seria o deputado Valdemar da Costa Neto (SP), secretário-geral do partido, envolvido em diversas denúncias.
Não há uma semana sem que o governo Dilma esteja envolvido, direta ou indiretamente, em um escândalo.
Itamar, o mineiro
O Brasil deve ao ex-presidente Itamar Franco mais do que o respaldo à criação do Plano Real, decisivo na recuperação do país. Não podemos jamais esquecer que ele, vice de Fernando Collor de Melo, substituiu o primeiro presidente da era pós-revolucionária a ser eleito pelo voto direto e, pouco depois, cassado.
No exercício da presidência, Itamar garantiu, de alguma forma, a sedimentação do processo democrático. Sem brilho pessoal, mas com o estofo mínimo para se manter, com relativa dignidade, em evidência na política nacional, Itamar foi sempre uma referência em Minas Gerais.
No exercício da presidência, Itamar garantiu, de alguma forma, a sedimentação do processo democrático. Sem brilho pessoal, mas com o estofo mínimo para se manter, com relativa dignidade, em evidência na política nacional, Itamar foi sempre uma referência em Minas Gerais.
Viva Chavez!
A Venezuela não pode correr o risco de Hugo Chavez morrer assim, de repente, inesperadamente. Seria um golpe muito duro, com repercussões ainda não muito claras no futuro do país. A possibilidade do surgimento de um culto à personalidade, no estilo dispensado ao argentino Juan Peron, é muito real.
Morto, Chavez poderia ser transformado em uma versão atualizada e bananeira de Simon Bolivar, virar mito, encobrir os descaminhos que ele vem abrindo, na sua histeria populista. De um momento para outro, não seria mais discutido, especialmente pela massa menos informada da população.
Talvez se transformasse em uma espécie de santo, guia, pai espiritual do povo. E todos sabemos o quanto é difícil combater, com ideias, os pensamentos oriundos do obscurantismo que acompanha os mandamentos de falsos profetas.
Para a família e amigos de Chavez, é claro, seria bom que o presidente vencesse a luta contra esse câncer anunciado. Para a Venezuela, também, por outros motivos: seria ótimo que ele, plenamente recuperado, em forma, fosse derrotado nas urnas, pelo amadurecimento da nação. A América Latina não precisa de novos mitos e mentiras. Precisa, sim, de políticos íntegros, que ajudem a consolidar a democracia.
Morto, Chavez poderia ser transformado em uma versão atualizada e bananeira de Simon Bolivar, virar mito, encobrir os descaminhos que ele vem abrindo, na sua histeria populista. De um momento para outro, não seria mais discutido, especialmente pela massa menos informada da população.
Talvez se transformasse em uma espécie de santo, guia, pai espiritual do povo. E todos sabemos o quanto é difícil combater, com ideias, os pensamentos oriundos do obscurantismo que acompanha os mandamentos de falsos profetas.
Para a família e amigos de Chavez, é claro, seria bom que o presidente vencesse a luta contra esse câncer anunciado. Para a Venezuela, também, por outros motivos: seria ótimo que ele, plenamente recuperado, em forma, fosse derrotado nas urnas, pelo amadurecimento da nação. A América Latina não precisa de novos mitos e mentiras. Precisa, sim, de políticos íntegros, que ajudem a consolidar a democracia.
A síndrome de Lost
Final da noite de sexta-feira, ainda sob os efeitos de uma gripe mal-curada, fui assistir ao penúltimo episódio de The Event (Universal, sextas, às 21 horas). Em poucos minutos confirmei a sensação que já vinha me acompanhando há algumas semanas: a série, que prometia muito, parece um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Se eu fosse diagnosticar o mal que a acomete, diria que é uma espécie de 'síndrome de Lost'.
Os acontecimentos se atropelaram. Os personagens foram e voltaram de mergulhos ideológicos. A líder dos extraterrestres, Sophia Maguire (Laura Innes, que ficou famosa no papel de uma médica deficiente física de lésbica, em ER), passou de defensora da vida na Terra a inimiga número um do homens, aos quais decidiu destruir para abrir caminho aos seus iguais, que vivem em um planeta em extinção.
O nerd Sean Walker (Jason Titer), sem uma explicação plausível, passou a dominar armas e técnicas de luta com mais decisão do que teclados e telas de computador. Além de conquistar todos os corações que passam à sua frente. E por aí segue. Vamos ver o que o último dos 22 capítulos - Arrival - nos reserva em revelações e emoção. Último mesmo, pois a série não conseguiu conquistar espaços para nova temporada.
Ao menos, enquanto esperava o início do episódio, tive a oportunidade de assistir a mais um excelente What's On, focado, nesse episódio, nos diretores que fazem (ou faziam) aparições em seus filmes, destaque para Alfred Hitchcock. What's On é sempre um bom divertimento: temas interessantes e bem apresentados.
Os acontecimentos se atropelaram. Os personagens foram e voltaram de mergulhos ideológicos. A líder dos extraterrestres, Sophia Maguire (Laura Innes, que ficou famosa no papel de uma médica deficiente física de lésbica, em ER), passou de defensora da vida na Terra a inimiga número um do homens, aos quais decidiu destruir para abrir caminho aos seus iguais, que vivem em um planeta em extinção.
O nerd Sean Walker (Jason Titer), sem uma explicação plausível, passou a dominar armas e técnicas de luta com mais decisão do que teclados e telas de computador. Além de conquistar todos os corações que passam à sua frente. E por aí segue. Vamos ver o que o último dos 22 capítulos - Arrival - nos reserva em revelações e emoção. Último mesmo, pois a série não conseguiu conquistar espaços para nova temporada.
Ao menos, enquanto esperava o início do episódio, tive a oportunidade de assistir a mais um excelente What's On, focado, nesse episódio, nos diretores que fazem (ou faziam) aparições em seus filmes, destaque para Alfred Hitchcock. What's On é sempre um bom divertimento: temas interessantes e bem apresentados.
O despertar da paixão
Coube a mim ler o poema em homenagem a Maria Augusta, no seu aniversário. Regina Lúcia, uma amiga de todo o curso primário e aluna destacada, entregou as flores
Não posso jurar que ela era tão bonita quanto a atriz Paola de Oliveira, que representa uma jovem professora que desperta no aluno-menino a primeira paixão ('Uma professora maluquinha', filmado em Minas, e com estreia prevista para outubro). Talvez não fosse tão alta, tão definida fisicamente. Tão exuberante. Eram outros tempos, outros padrões.
Mas ainda lembro que era muito jovem (e a foto acima, encontrada no fundo de um velho baú, mostra isso), absoluta e totalmente doce, encantadora e, aos meus olhos, a mulher mais linda do mundo. Aos nove anos, me descobri perdidamente apaixonado por ela. Uma paixão daqueles tempos, segunda metade da década de 1950. Pura e total. De garoto que começa a se descobrir homem.
Tão devotado eu era, que cheguei a adoecer de paixão. De um dia para o outro, Dona Maria Augusta - "é Augusta e é Maria, nomes santos", declamei para ela, na festa que a direção da Escola Municipal Evangelina Duarte Batista, em Marechal Hermes, preparou no dia do seu aniversário - não mais me olhou com os olhos que me encantavam e faziam meu coração disparar, sem que eu soubesse bem o motivo.
Estava claramente distante, monossilábica - eu ainda não sabia bem o que seria isso, mas já sentia os efeitos da secura dos 'sins' e dos 'nãos'. "O que será que eu fiz?", me consumia, tentando descobrir um ato ou uma palavra que tivesse causado aquele corte brusco, aquele rompimento.
Fiquei abatido, não comia direito, relutava em sair de casa para ir à escola. Foram dias de intenso sofrimento para um menino avassaladoramente apaixonado. A dor era tão grande e devastadora que minha mãe, preocupada, quis saber o que estava acontecendo. Desabafei, não a paixão (por timidez, ou por não ter a noção exata do que sentia), mas o sofrimento que o distanciamento compulsório estava me causando.
Dona Dalva não pensou duas vezes. Seu filho estava sofrendo, ela sentia. Trocou de roupa e cruzou os cinco ou seis quarteirões que separavam nossa casa da escola. Pediu para conversar com minha professora. Tinha uns assuntos para resolver. Maria Augusta não negou que estivesse aborrecida comigo. Ao contrário. Estava, sim. Um aborrecimento que vinha do que ela classificou como decepção por uma atitude que eu teria tomado, dias antes.
Confrontado, com o restante da garotada da turma, após uma demonstração de bagunça generalizada num período em que ela saíra de sala, eu teria negado ter feito alguma coisa que ela pressupunha que eu fizera (acho que era pular por cima das carteiras, ou algo parecido). Ela esperava que eu - assim como outros fizeram - confirmasse o delito, enfrentasse as consequências dos meus atos. Especialmente eu, o primeiro aluno da classe, peito repleto das medalhas que nessa época eram distribuídas mensalmente, no começo de cada mês, na frente de todos os alunos e pais, no pátio interno da escola.
Ficou claro que eu não havia atendido às suas expectativas e isso a magoara muito.
Até hoje, passados mais de 50 anos, não sei se me omiti. Não sei se tive medo de enfrentar o castigo, a cobrança. Ainda não consigo - ao 'recuperar' as imagens daquele dia específico - me ver pulando em cima de uma carteira, o que seria absolutamente normal, em se tratando de crianças. Certamente participei da bagunça, mas não daquele modo específico. Volto no tempo e ainda não me vejo culpado. Não menti, quero continuar acreditando.
Aos poucos, Maria Augusta deu sinais de me ter perdoado. Aos meus olhos, seus olhos diziam que tudo havia voltado ao normal entre nós. Eu já podia sonhar que era, de novo, correspondido. Naquele momento, não havia dúvidas quanto à essência dos últimos versos do tal poema que declamei no seu aniversário: "Seria um doce encanto, com ela, a vida toda aprender".
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Governar é abrir os cofres
Governar, um dia, já foi abrir estradas. Hoje, tempos menos românticos e mais pragmáticos, o negócio é abrir o cofre. Assim, como fez o BNDES na parceria açucarada com o novo amigo de todas as horas, o empresário Abílio Diniz, culpado, até pouco tempo, de ter sido sequestrado de propósito, só para prejudicar uma das muitas candidaturas fracassadas do ex-presidente Lula.
A voracidade dos ínclitos representantes do capital - quando se trata de abocanhar o capital dos outros, é claro - só se compara à gula de senadores e deputados federais. Dona Dilma que não libere as tais emendas que andam em compasso de espera. A tal base do governo - um saco de ratos famintos - já mostrou que sabe como jogar o jogo do poder, em tempos de pós-mensalão, dólares na cueca e aloprados.
Munição é o que não falta - e o governo não se cansa de oferecer. Basta dar uma olhada na lista de atuais ministros. Parodiando o mago petista, nunca, na história desse país, houve um ministério tão medíocre, tão nheco-nheco, tão supérfluo, rasteiro e despreparado para qualquer atividade, seja ela qual for.
Parecidos, só mesmo os imediatamente anteriores. E, nesse ponto, acho que vale um misto de parêntese e provocação: vocês ainda lembram que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, uma instituição que fez história, a 'Casa de Rui Barbosa', foi comandado até recentemente por ... Celso Amorim, o parceiro de Hugo Chavez, amigão dos irmãos Castro, defensor perpétuo das atrocidades iranianas?
"Não tem dinheiro para as minhas 'obras sociais'? Tudo bem. Vamos ouvir o que o ministro Aloizio Mercadante tem a dizer sobre a compra de dossiês falsos", ameaçam uns, naquele tom temido pelo Poder. "Vai congelar minha emenda? Pois eu vou assinar o requerimento para ouvir a ministra Ideli sobre suas atividades paralelas ao mandato de senadora", vociferam outros.
Para coroar esse momento de brilho sem par do governo Dilma, ouviu-se, no fundo, aquela 'voz', na homenagem prestada pelo Congresso ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:
"E nós precisamos ter presente, Fernando, que os tempos mudaram. Ele (o escritor Nelson Rodrigues) dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento". Sábias palavras, ministro Nelson Jobim.
A voracidade dos ínclitos representantes do capital - quando se trata de abocanhar o capital dos outros, é claro - só se compara à gula de senadores e deputados federais. Dona Dilma que não libere as tais emendas que andam em compasso de espera. A tal base do governo - um saco de ratos famintos - já mostrou que sabe como jogar o jogo do poder, em tempos de pós-mensalão, dólares na cueca e aloprados.
Munição é o que não falta - e o governo não se cansa de oferecer. Basta dar uma olhada na lista de atuais ministros. Parodiando o mago petista, nunca, na história desse país, houve um ministério tão medíocre, tão nheco-nheco, tão supérfluo, rasteiro e despreparado para qualquer atividade, seja ela qual for.
Parecidos, só mesmo os imediatamente anteriores. E, nesse ponto, acho que vale um misto de parêntese e provocação: vocês ainda lembram que o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, uma instituição que fez história, a 'Casa de Rui Barbosa', foi comandado até recentemente por ... Celso Amorim, o parceiro de Hugo Chavez, amigão dos irmãos Castro, defensor perpétuo das atrocidades iranianas?
"Não tem dinheiro para as minhas 'obras sociais'? Tudo bem. Vamos ouvir o que o ministro Aloizio Mercadante tem a dizer sobre a compra de dossiês falsos", ameaçam uns, naquele tom temido pelo Poder. "Vai congelar minha emenda? Pois eu vou assinar o requerimento para ouvir a ministra Ideli sobre suas atividades paralelas ao mandato de senadora", vociferam outros.
Para coroar esse momento de brilho sem par do governo Dilma, ouviu-se, no fundo, aquela 'voz', na homenagem prestada pelo Congresso ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:
"E nós precisamos ter presente, Fernando, que os tempos mudaram. Ele (o escritor Nelson Rodrigues) dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento". Sábias palavras, ministro Nelson Jobim.
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